sexta-feira, 17 de junho de 2011

Quase Poema ou das Ausências


A promessa era antiga…acho mesmo que era uma jura…ou mesmo um responso de monge eremita!
-Dia de Santo António regressaremos sempre ao mesmo lugar…
Nesse tempo ainda acreditávamos que as searas maduras eram tão-somente lençóis de linho estendidos à beira da noite enluarada.
Encontrei-te mais tarde…num tempo antiquíssimo…senti frio como se todas as solidões regressassem à casa terrivelmente silenciosa.
Ainda tentei enganar o tempo e dizer-te que as palavras ainda são doces como os poemas ditos a dois na lonjura da cidade.
…mas verdadeiramente sabemos que o poema morreu rigorosamente à beira de novos encontros e repetidas promessas que no momento exacto são feitas de eternidade.
…falei-te que não cumprimos a promessa feita a Santo António, ao Santo mais Santo de Portugal!
Somente disseste na lonjura do estar, ou como quem mora noutro lugar:
- pois não!
Lembrei-me de novo da seara:
- Lembraste da seara?
- As searas nascem e morrem todos os anos na urgência do trigo, do pão para a boca.
…a seara morreu!
…o poema morreu!
Os poetas morrem em todas as noites em que as searas, benditas searas são o pão sagrado para a boca.
Visto o casaco.
Sinto frio…
Acho que a seara nunca existiu!
…o pão nosso de cada dia nos dai hoje!
(Fernando Calado)

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