terça-feira, 4 de julho de 2017

Entrevista ao meu AMIGO Chico Prada

O Memórias e Outras Coisas (MOC) entrevistou Francisco Prada “Chico Prada” (CP)


MOC: Chico, quem não te conheceu, quem não teve o prazer de ser teu amigo, de conhecer o teu percurso, nomeadamente as gerações mais novas de Bragançanos, terão de ti a imagem que a comunicação social transmitiu aquando dos acontecimentos que te fizeram abandonar esta tua e minha terra. Que lhes queres dizer?

CP: Em primeiro lugar, independentemente das tentações, de visões obtusas da realidade que por vezes nos possuem, da sensação de impunidade que por vezes sentimos, o mais importante é manter sempre os pés bem assentes e tentar ter sempre um olhar crítico e realista sobre tudo o que fazemos. Eu sei (e como!) que nem sempre é fácil discernir a realidade da ficção, muito menos quando uma boa parte da nossa atividade é exatamente a ficção, a criatividade, o produzir algo a partir do nada. Por isso é preciso, de tempos a tempos, parar, olhar e refletir onde estamos, ou para onde caminhamos e evitar de voar demasiado alto, como Icaro, ou ficarmos demasiados deslumbrados com a luz do holofote que paira sobre nós, que nos atrai de forma irresistível, qual mariposa que irremediavelmente acaba por se queimar.


MOC: A tua participação cívica em Bragança fez-se nas mais variadas áreas. Destaco a atividade musical, o ensino, a defesa do Património Natural. Fala-nos um pouco sobre as coisas que fizeste nestas áreas. 


CP: Como bem sabes, naquele idos tempos das décadas de 80 e 90, a nossa região era um quase deserto ao nível cultural e particularmente musical. As pessoas tinham sede de atividade, de produção, de ver e ouvir coisas...  

Ainda nos tempos de estudante de liceu e no âmbito do F.A.O.J, criei, em parceria com alguns amigos, o Zé Rui, o Minhoto, o Manuel Prada e o Humberto Sobrinho ,um grupo musical de nome “The Way”. Os instrumentos eram emprestados pelo Padre Dr. Sobrinho Alves, sempre atento e pronto a incentivar os projetos criativos das sucessivas gerações de jovens brigantinos. Ele era o nosso principal incentivador nas artes musicais.
Interpretávamos um pouco de tudo, da música “ligeira” ao Rock. Foi uma aventura interessante que nos deu a experiência de tocar “ao vivo” para imensas pessoas, e assim aprender a perder  o “medo” de enfrentar o público. Éramos todos muito jovens, 16 ou 17 anos, à exceção do Manuel que era já licenciado e distinto professor de Filosofia no liceu.
Em paralelo, todos os Domingos com este grupo e mais outros amigos , o Gino e o saudoso Filipe Lobo, fazíamos a animação musical da liturgia da Capelania Escolar de N.Sra das Graças, de que era capelão o Padre Sobrinho. Não raras vezes contávamos também com a participação importante de alguns instrumentistas de sopro, como os irmãos João e Albino Carneiro, o Sr Alberto Geraldes e ainda o Sr. Duarte .
Alguns anos mais tarde, ainda estudante do conservatório, fui convidado para professor de Música no Centro de Educação Especial de Bragança. Foi uma vivência incrivelmente enriquecedora para mim ! Produzir música com crianças com dificuldades intelectuais, motoras, auditivas.  Fazer música com crianças surdas que tinham uma perceção do som (ou melhor, das vibrações acústicas) bem diferente da nossa. E adoravam.
No ano seguinte fui então convidado pelo Arq. Campelo, recém-eleito diretor da então Escola do Magistério Primário, para lecionar a cadeira de Expressão Musical, escola onde fiquei vários anos, até à extinção desta memorável instituição que formou imensas gerações de Professores e Educadores.
Aí, de parceria com alguns colegas, a Luisa Pereira, que lecionava a cadeira de Literatura Infantil, a Isabel e a Angelina Sanches, responsáveis pelo Curso de Educadores de Infância, a Luisa professora de Expressão Corporal, o Fernando Calado, professor de Pedagogia e um grupo de nossos alunos, produzimos e gravámos um programa para a RTP. Tratava-se do programa “Clube de Leitura” da autoria do escritor Carlos Correia.  A nossa participação consistiu na interpretação de uma Opereta Infantil, que eu compusera alguns meses antes, com um guião que navegava pelo imaginário coletivo dos contos tradicionais, tendo como ponto de partida a história da “Branca de Neve” e interpretada por cerca de uma trintena de nossos alunos através do instrumentarium Orff, formação instrumental ainda muito rara no nosso País naquela época. Pena que não tenhamos registos desse programa, pois estávamos no início dos anos 80 e ainda não havia gravadores de vídeo caseiros e, uma vez o programa passado na televisão, restou apenas o registo gravado nas nossas memórias.Talvez um dia possamos pedir uma cópia aos Arquivos da RTP. 
Durante esses anos o tempo parecia elástico! Foram anos em que eu e alguns companheiros nos desdobrávamos em múltiplas atividades. Foi nessa época que criei a Escola de Música da Galerias Carvalho. Tinha havido outra durante algum tempo, no Bairro da Estação, a escola do Carlos Pires, mas infelizmente tinha cessado já a sua atividade.
Organizei a escola por disciplinas e e rodeei-me de excelentes professores como a Mme Lisette para o Piano e o Fernando Fernandes para a Guitarra Clássica. Por lá passaram durante anos, dezenas e dezenas de crianças e jovens bragançanos que assim puderam desenvolver as mais variadas aptidões e aprendizagens musicais. 
Foi também no Verão de um desses primeiros anos que criei, mais uma vez com os “velhos” companheiros Minhoto e Zé Rui mais a Raquel Castro o embrião do grupo “Cantus Noster” , o primeiro grupo que dedicou a sua existência (cerca de 12 anos) à recolha, estudo e divulgação da música tradicional de todo o Nordeste Transmontano.
Pouco tempo depois, após a partida do Zé Rui para Lisboa (onde é atualmente professor de música e maestro de um importante grupo coral) e do Minhoto para o Porto (atualmente Professor Engenheiro no IPB) outras pessoas integraram o grupo. Desde logo a Lena Gonçalves, o Jorge Higino Fernandes (aliás, Gino), a Glória Alves, o José Peixoto, a Mara Cepeda, depois a Fernanda, a Bárbara Silva, a Cristina, a Tété, a Isabel Martins (a tua irmã) e o Henrique Jorge, então ainda alunos da Escola do Magistério Primário, o João Manuel Saldanha e o João Numes (aliás, “o Mirandela” para os amigos), o António Tiza e, mais tarde, os dois violinistas Artur Fernandes e Carlos Aguiar. 
Com este grupo percorremos todas as regiões do País, Espanha e França, sempre divulgando uma das mais puras expressões culturais do Nordeste de Portugal, a sua música tradicional. Por todo o lado fomos acolhidos com entusiasmo e surpresa uma vez que naqueles tempos a expressão musical tradicional do povo transmontano era quase completamente desconhecida. E tinha sonoridades estranhas, mas que cativavam as pessoas. E as pessoas pediam mais e mais. Por vezes os concertos duravam mais 40  ou 50 minutos do que o previsto. Era de facto gratificante para nós .
Nunca chegámos a gravar discos (naquela época era ainda o vinil). Uma vez, ganhámos como prémio nacional na Estufa-fria de Lisboa, a gravação de um disco. Mas o problema era que teríamos de passar vários dias, ou semanas em Lisboa, o que era de todo impensável para nós.
Acompanhei ainda, durante alguns concertos em Portugal e Espanha a cantora canadiana Judith Choen, interpretando canções Sefarditas . 
Aproveito aqui um parênteses para render a minha modesta homenagem ao grupo Galandum Gallundaina que é atualmente o grande embaixador da música mirandesa nos quatro cantos do mundo. Um grupo de excelentes músicos, todos com formação profissonal na área ( um deles, o Alexandre Meirinhos foi mesmo um dos meus memoráveis alunos no IPB) , que produz um trabalho de excelente qualidade musical e antropológica. Bem hajam os irmãos Meirinhos e o Paulo Preto .
Após o desaparecimento da Escola do Magistério, ingressei, por concurso, na Escola Augusto Moreno, na qual fiz, durante dois anos,  o meu Estágio Pedagógico e Profissional, na modalidade de formação em serviço e como entidade formadora a Escola Superior de Educação de Bragança.
Durante esses anos de docência nesta Escola, tive a oportunidade de iniar uma metodologia de aprendizagem da música que era quasi desconhecida então, através do método Kodaly/Orff. As crianças aderiram imediatamente pois esta metodologia era quase diametralmente oposta ao arcaico método de aprendizagem em vigor, demasiado teórico e com uma componente prática quase inexistente, à exceção da interpretação de algumas canções (toda a nossa geração se recorda bem das fatídicas aulas de Canto Coral) pouco cativantes para gente de tenra idade. Este novo método era baseado na vivência prática, na experimentação, na criação da Expressão Musical através dos elementos corporais e de instrumentos musicais pouco complexos (a maioria eram de percussão). A teoria aparecia então na última fase, como uma explicação das práticas musicais vividas. As aulas eram assim um momento de alegria e prazer criativo para as centenas de jovens que por lá passaram. Afinal era tão fácil aprender Música !!!
Pouco tempo depois fui convidado pela direção da Escola Superior de Educação para lecionar, em regime de acumulação, a disciplina de Expressão Musical nos cursos de formação de professores do Ensino Básico.
Mais tarde, já como professor a tempo integral nessa Escola, organizei e instalei o Curso da Variante de Professores Educação Musical para o Ensino Básico.
Pela primeira vez os estudantes nordestinos tinham a oportunidade de fazer uma formação musical superior no domínio da docência da música. E acorreram massivamente .
Durante anos, esta variante cresceu, foi amadurecendo. Muitos outros professores vieram enriquecer o corpo docente desta área vocacional. 
Foi então que propûs ao Luiz Canotilho, então presidente da direção da ESE de Bragança, a criação de uma Orquestra Orff, constituída por alunos e professores da ESE, ideia que ele apadrinhou de imediato e incentivou intensamente.
Com esta orquestra fizémos imensos concertos  na região e particularmente em Bragança. As peças interpretadas variavam entre a música da Renascença (de que eu fazia a adaptação instrumental para a Orquestra) e criações de compositores contemporâneos como Pierre van Hauwe, Zoltan Kodaly , Carl Orff ou Bruno Bastin.
A Solidão no Deserto
Como a carência de professores de Educação Musical era enorme em todo o País e particularmente no interior nordestino, o Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros, na altura dirigido pelo nosso velho companheiro dos tempos do FAOJ, o Armando Queijo, convidou-me para implementar também o mesmo Curso de Professores de Ensino Básico -Variante de Ed. Musical naquela instituição. Durante alguns anos, lecionei simultaneamente na ESE de Bragança e no Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros.
Ali criei também uma orquestra Orff e algumas formações musicais diferentes, como a Tuna Mista e um grupo que interpretava temas desde o Jazz à Bossa Nova.
De ambas as Escolas guardo a memória de colegas e alunos (ou melhor, de amigos) com os quais vivi imensos momentos de prazer pessoal, profissional e artístico. Eles eram excelentes. Tanto como pessoas, como artistas e são hoje bons exemplos de excelentes profissionais que integram os corpos docentes de Escolas espalhadas um pouco por todo o País.
Durante estes anos escrevi bastante. Essencialmente livros ou manuais de apoio às disciplinas que lecionava: “Instrumentos Musicais Tradicionais do Nordeste Transmontano”, “Manual de História da Música Portuguesas”, “Manual de Organologia Instrumental”, “ Manual de apoio à Disciplina de Acústica “, etc.
Mas também artigos da especialidade de Etnomusicologia em várias publicações da especialidade, tanto em Portugal como em Espanha. Recordo um, particularmente interessante, pois tratou-se da publicação “As Madeiras e os Sons” produzido pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional de Lisboa, dedicado aos instrumentos  tradicionais de madeira. Participei nesta publicação em parceria, entre outros,  com o Pedro Caldeira Cabral, à época o maior especialista do estudo da Guitarra Portuguesa.
De parceria com o António Tiza, escrevi também, após cerca de dois anos de trabalho de investigação e recolha no terreno, o “Cancioneiro Tradicional do Alvão” , uma edição do Parque Natural do Alvão.
Posteriormente, ainda em parceria com o António Tiza e o António Morais começámos a trabalhar sobre o Cancioneiro do Parque Natural de Montesinho. Toda a primeira fase de inventário foi concluída, centenas de horas de registos fonográficos e muitas, muitas páginas escritas...mas nunca chegou a publicação, por indisponibilidade de verbas por parte do Parque Natural de Montesinho. Talvez um dia, quem sabe, esse trabalho saia da gaveta...
Não poderia terminar esta parte dedicada à minha atividade artística sem referir o saudoso Leandro do Vale e o seu/nosso “Teatro em Movimento”. Em parceria com o Leandro, compus bastantes músicas para algumas das peças de teatro desta companhia. Normalmente ele apresentava-me as letras e descrevia-me o “espírito” da peça e eu depois compunha a música. Depois discutíamos os dois, fazíamos as alterações necessárias até à produção final.
Ainda com organização do “Teatro em Movimento”, animei durante mais de um ano as “Sextas-feiras Musicais”. Tratava-se da apresentação, para o público presente, de obras de música clássica,desde a ópera à musica barroca e sinfónica, que eu ia comentando a cada passo, sobre a estrutura, a vida e obra dos seus compositores, uma forma de desmistificar estes géneros musicais e torná-los mais compreensíveis para as pessoas presentes, na grande maioria jovens.
Compûs também, nos idos anos 80, as músicas para a participação da equipa de Bragança  no concurso “Formula J “ da RTP. Concurso no qual a nossa equipa saiu orgulhosamente  vencedora. 
Preparando o avião para
mais uma missão da
Operação de vigilância de incêndios
Outra das minhas paixões de sempre foi a aviação.
Ainda muito jovem, meados dos anos 70, iniciei-me no aeromodelismo, com os amigos Luís Vaz (O Luís do Flórida) e Tó Cristóvão. Comprávamos os pequenos motores (de 2,5 cm3) de combustão interna na Inglaterra (muito mais baratos que em Portugal, a cerca de 500 escudos, ou seja 2.5 € na moeda actual, mas  que era “dinheiro” na altura,  e os restantes materiais (balsa, colas, papel de arroz, etc) na Casa Rosarinho em Lisboa, na altura a única casa da especialidade no nosso País, pelo menos do nosso conhecimento. Construíamos nós mesmos, manualmente, de A a Z todas as peças dos pequenos aviões, que depois fazíamos voar num qualquer “lameiro” próximo, ou no antigo Campo de Aviação de Bragança, onde se situa hoje o Bairro de Santiago.
Mais tarde, criei um núcleo de aprendizagem de Aeromodelismo no FAOJ, ainda no n° 50 da Rua “Direita”, por onde passaram inúmeros jovens que assim tiveram o primeiro contacto com a aviação, se bem que à escala reduzida. 
Alguns anos mais tarde essa atividade foi retomada pelo Safera da Costa, conhecido antigo apresentador de um programa da RTP dedicado ao Aeromodelismo, por onde tinha passado, ainda jovem, um tal...Júlio Isidro. 
Os anos passaram mas o “bichinho” da aviação continuou e, começara então a era da Aviação Ultraligeira. Desde logo aficionado e, sob a tutela do amigo Nuno Vicente, que acabara de adquirir um ULM pendular, fui fazer a minha formação nesta modalidade em Espanha, na mesma Escola de Voo que ele, e onde obtive o meu primeiro “brevet” de piloto.
Mas, a tentação de voar mais alto, mais rápido, mais longe levou a melhor. Frequentei o curso de formação de Pilotos de Avião no Aeroclube de Viseu e, ao fim de aproximadamente um ano de formação teórica e prática, obtive o meu “Brevet” de Piloto Privado de Avião. Desde então munca mais parei a minha atividade aeronáutica. 
O Egidio Frias, também piloto, tinha acabado de ser eleito presidente do Aeroclube de Bragança e tinha apresentado a candidatura de participação na operação de vigilância aérea florestal. Por todo o País, sob a coordenação da Proteção Civil e o Serviço Nacional de Bombeiros, os aeroclubes selecionados faziam operações de vigilância aérea das áreas florestais por forma a detetar rapidamente a existência de focos de incêndio que assim poderiam ser combatidos pelos Bombeiros sobre o terreno, ainda numa fase inicial da ocorrência. Durante as operações de combate, nós ficávamos a sobrevoar a zona de sinistro para dar informações importantes ao comando sobre o terreno, uma vez que, em altura , tínhamos uma visão privilegiada sobre a progressão do incêndio. Algumas vezes participámos mesmo na deteção e perseguição de alguns incendiários, permitindo assim a sua captura pela GNR.
Naquela época, o Aeroclube de Bragança contava apenas com 3 pilotos no ativo. O saudoso Dr. Luís de Carvalho, o Egídio Frias e eu. Como as operações se faziam diariamente (2 vezes por dia) de Julho a Setembro, o piloto que tinha mais disponibilidade de tempo era eu, uma vez que coincidia com o período de férias escolares. Desta forma e durante alguns anos eu assegurei a grande maioria destas operações, até ao momento que outro aeroclube recentemente formado em Bragança, o Aeroclube Asas do Nordeste foi também certificado para participar nesta operações, num primeiro ano apenas com 1 piloto, o Valdemar Correia e nos anos seguintes com mais dois novos pilotos que obtiveram entretanto os seus “Brevets” de Piloto de Avião, o Nuno Vicente e o  José Rocha, de Macedo de Cavaleiros. 
Um concerto com a Judith Cohen
Nesta época fiz também a minha formação de Para-quedismo na Associação de Para-quedistas do Nordeste, sediada em Bragança, na altura liderada pelo Jorge Sena, entidade com a qual mantínhamos estreita colaboração e com quem organizei o 1° Open de Para-quedismo do Nordeste do INATEL.
Ainda no seio do Aeroclube de Bragança e em parceria com o Aeroclube de Leon em Espanha, integrei a equipa de organização dos primeiros Raides Aéreos Ibéricos, em que não poderemos olvidar a entusiástica e imprescindível colaboração do João Rodrigues, na altura diretor do Aeródromo de Bragança, também piloto de ultra-ligeiro e grande aficionado da modalidade.
Posteriormente, e já sob a a direcção do juiz Francisco Marcolino, o Aeroclube de Bragança organizou o seu primeiro curso de formação de pilotos privados de avião. Coube-me a mim, fazer a formação de adaptação dos novos pilotos à aeronave “Rallye Socata, de 180 Cv” que o aeroclube possuía e que eu conhecia perfeitamente pois contava já com algumas centenas de horas de voo aos comandos deste aparelho.
Durante cerca de três anos, desempenhei também o cargo de Delegado Regional do INATEL.  
Neste âmbito, para além das atividades habituais da instituição, ou seja a promoção e apoio dos grupos de teatro, dos ranchos folclóricos, bandas de música da região e associações desportivas filiadas, organização de excursões e programas de férias para os associados, lancei algumas novas atividades. A saber, organização de concertos musicais pontuais, de que recordo particularmente um concerto de música clássica, realizado no Auditório Paulo Quintela, com a participação do “nosso” querido José Rui Fernandes (aliás Zé Rui) , distinto músico bragançano, reconhecido intérprete de flauta transversal, desde há bastantes anos a residir em Lisboa onde é professor de música e também maestro de um importante grupo coral, que assim pôde realizar o seu primeiro concerto profissional nesta terra que o viu crescer,  mais de 10 anos depois de ter partido .
Lancei também a organização do primeiro Open Nacional de Paraquedismo INATEL de Bragança em parceria, claro está, com a Associação de Paraquedistas de Bragança.
Num âmbito desportivo mais “radical” organizámos também, pela primeira vez em Bragança, uma prova nacional de Desporto Aventura (BTT, Prova de Orientação diurna e noturna, Escalada e Canoagem), baseada na Quinta das Covas em Gimonde e que se desenrolou na área da Serra de Montesinho. Neste evento participaram equipas de todo o País, a maioria constituídas por veteranos e campeões da modalidade e, pela primeira vez, uma equipa do Instituto Politécnico de Bragança, sob a orientação dos professores José Bragada e João Quina.

MOC: Como diz o povo, “o que hoje é verdade, amanhã é mentira e vice-versa”. Do que sentes mais saudades? Da terra, das gentes…?


CP: De tudo mas, em primeiro lugar evidentemente, das gentes, ou melhor, de algumas “gentes” . Das verdadeira amizades que se desenvolveram e conservaram ao longo do tempo. Das pessoas com quem partilhei intensos momentos da minha vida. Das pessoas (como tu e todo o “bando”) que me ajudaram a “crescer” enquanto pessoa, enquanto criador e transmissor de arte, de ideias, de princípios. 

 De pessoas que souberam abrir o coração e dizer as verdades nos momentos próprios, sem rancor, sem animosidade, mas com um grande senso de amizade e fraternidade. 
Felizmente que existe este teu blog, que eu abro quase diariamente, num qualquer outro fuso horário, por vezes bem distante de Bragança. É assim que sigo à distância as mudanças da nossa terra, que me delicio com os textos intimistas do Fernando Calado ou com o produto da dourada pena do Armando Fernandes ou ainda as perspicazes análises do Teófilo Vaz,  que vou sabendo das boas e por vezes menos boas notícias dessa terra que me viu nascer e crescer.

MOC: Percorreste muitos quilómetros em recenseamentos de espécies como seja a Cegonha Branca. Foste co-autor de livros sobre esses recenseamentos em tempos em que os apoios institucionais eram inexistentes. Foram inúmeras as escolas e instituições em que participaste e orientaste sessões de educação ambiental. Sempre SEM GANHAR UM TOSTÃO. Fala-nos um pouco sobre isso, conta-nos as tuas memórias.



Manifestação em Mirandela contra
a eucaliptização do Nordeste Transmontano
CP: Outra das minhas paixões, e tu és umas das pessoas melhor posicionadas para o saber, foi sempre a defesa e proteção do “nosso” meio ambiente. Principalmente contigo mas também com outros companheiros, unidos pelos mesmos ideais.
Fizemos um trabalho de titãs, perdoem-me a imodéstia, pois os tempos eram outros, os recursos quases nulos, a resistência de muitas instituições, pouco sensíveis ao tema, era enorme, e o dinheiro necessário saía dos nossos bolsos.  
Nós fizemos um trabalho enorme e consequente, apesar da escassez de recursos de que dispunhamos ! 
Não posso esquecer de referir aqui uma ajuda preciosa que tivémos de uma instituição, ou melhor, da pessoa que encarnava na época essa instituição. Ele tinha sido nosso (meu e teu) professor no liceu e já conhecia bem as nossas teimosias e paixões. E acreditava nelas! Foi o Dr. Júlio de Carvalho, à época insigne Governador Civil de Bragança. Ele também dispunha de meios escassos mas... Tinha um jipe! Foi nesse jipe, posto à nossa disposição sempre que necessário, que percorremos milhares de Km por esse distrito fora, durante dois anos, para inventariar a escassa população de Cegonha Branca (Ciconia ciconia) e executar as ações de estudo e proteção necessárias. Com este veículo chegávamos a todo o lado, da ribeira de Angueira ao alto das falésias das arribas do Douro.
Lembras-te da pequena lagoa de Malhadas onde tantas vezes nós dois “merendámos” contemplando a cegonha que entretanto, ali ao lado, no ninho construído sobre o alto de um carvalho, chocava os seus ovos? E depois voltávamos, uma e outra vez para seguir o crescimento dos seus filhotes. Como era belo o pôr-do-sol nesse local! 
A quantos “negrilhos” subimos, para  limpar os “galhos” que entretanto haviam crescido e   impediam ou dificultavam o acesso aos seus ninhos, a esta bela ave,  símbolo secular da fertilidade.
O resultado destes dois anos de intenso trabalho de estudo e conhecimento desta espécie, foi depois traduzido em livro (edição QUERCUS) na altura documento único do estado da população da Cegonha Branca no Nordeste Transmontano e muito apreciado e elogiado pela comunidade ambientalista.
Mas o resultado ficou à vista. As Cegonhas, quase desaparecidas na década de 80, repovoaram o nosso Nordeste trazendo o encanto da sua elegância ao alto dos campanários ou das árvores que ainda povoam os nossos campos.
Mas, gravado nas minhas memórias, ficará o olhar das crianças e jovens a quem ensinámos a “amar” o lobo, as águias ou os pequenos passaritos aos quais, mesmo nós, em criança, fazíamos caça. A quem ensinávamos a construir jogos didáticos sobre a temática ambiental, a quem projetávamos diaporamas realizados por nós, ou os filmes de Rodriguez de la Fuente.
Constituíamos na altura o Nucleo de Educação Ambiental da QUERCUS, do qual eu tinha a coordenação a nível nacional. Éramos solicitados para todo o lado ! Por escolas, Associações, Juntas de Freguesia, dos quatro cantos da nossa região. O nosso núcleo de Bragança era um dos mais ativos do País e essa atividade tinha peso. Tanto que chegámos a ter simultameamente 4 membros na direção nacional da QUERCUS.
Creio que todos nós (os activistas do NPEPVS num primeiro tempo e da QUERCUS posteriormente) tivémos um importante papel no desenvolvimento de uma certa consciência ecológica na geração que nos sucedeu.

MOC: Continuas ligado à música?


CP: Muito pouco atualmente, por falta de tempo. Mas como poderia eu cortar esse cordão umbilical? A música fará sempre parte de mim e da minha vida. Claro que atualmente a realidade é diferente. O meu tempo disponível para essa minha paixão é bem outro. Mas, desde os primeiros tempos no estrangeiro, integrei grupos de música com pessoas que eu já conhecia desde há muito tempo. Fizemos bastantes espetáculos onde aportámos a nossa música portuguesa a imensos estrangeiros que, tinham a coragem e abnegação de escutar uma hora e meia de espectáculo numa língua estranha, sem compreenderem o significado das palavras de Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, do Sérgio Godinho ou mesmo do Fernando Pessoa, mas atraídos pela musicalidade das canções que fizeram História em Portugal, desde a canção de intervenção, aos temas do nosso cancioneiro tradicional. Tivemos mesmo uma participação para a RTP Internacional.

Há alguns anos ainda colaborei, à distância, na parte musical de uma das peças históricas do nosso amigo António Afonso.
Depois, a minha vida profissional foi-me ocupando cada vez mais tempo, o que implicou uma redução da minha intervenção ao nível musical. Atualmente “contento-me” quase exclusivamente a tocar para os amigos, para a família, e a compôr algumas peças musicais para alguns momentos marcantes, como um batizado ou um casamento. 

MOC: Permite-me uma pergunta mais íntima. O que mudou na tua vida a partir do momento em que optaste, ou foste obrigado a abandonar Bragança e Portugal?


CP: Num primeiro tempo senti-me desorientado, não sabia bem que rumo empreender. Continuar a remar num mar hostil, ou partir em busca de novos horizontes? Continuar a fazer o que eu sabia fazer de melhor, a música, ou aprender novas atividades e cortar radicalmente com o passado?  

Quando “rebentou a bomba mediática”, temendo o pior, dois amigos, o Luiz Canotilho e o Fernando Calado foram ter comigo ao final da tarde e disseram-me: “... Aqui vão-te massacrar...com as capacidades e inteligência que te conhecemos tu poderás singrar não importa onde em todo mundo. O melhor para ti é partires... “ 
Parti na manhã seguinte . 
Vivi então momentos difíceis, a todos os níveis. Lia e ouvia as notícias locais. Muitos orgãos de comunicação social (houve apenas algumas exceções e que agradeço a lealdade que tiveram para comigo) se “atiraram” sobre mim, qual alcateia faminta em vista de uma presa fácil e apetecível.
Nesses tempos conturbados, foi-me preciosa, mesmo vital até, a ajuda moral e por vezes material de alguns amigos, de quem guardo um lugar de destaque no pedestal da estima pessoal.
Depois  tive um filho, maravilhoso. Tem hoje 14 anos. E esse facto mudou tudo na minha vida.Tornei-me muito mais realista, mais cauteloso (mais desconfiado até), encontrei um outro sentido de vida, um objetivo bem claro.


Atuação do Cantus Noster
MOC: Escreveste em órgãos de comunicação social regional artigos ligados à tua especialidade, a música. Lembra-me dos teus artigos na revista “Amigos de Bragança” Mensageiro de Bragança, Jornal Dómus. Continuas a escrever?

CP: É verdade que produzi bastantes artigos ligados à música em muitos em orgãos locais e regionais e também bastantes em revistas estrangeiras da especialidade. Sem contar com as muitas conferências que fiz em Portugal, França e Espanha, onde fui um dos primeiros membros da Sociedade Ibéria de Etnomusicologia.

Atualmente escrevo muito pouco, infelizmente. Nos primeiros tempos da diáspora, tinha mais tempo livre e ainda escrevi um ou outro artigo que alguns velhos amigos espanhóis me solicitaram. O tempo não é elástico e a minha vida profissional ocupa-me imenso. Por outro lado, como a minha vida profissional é agora bem diferente, e pouco a pouco fui perdendo os contactos com os círculos musicais em que me movimentava no passado. As pessoas foram mudando, foram desaparecendo, sendo substituídas e eu acabei por perder essas relações.
É verdade que essa atividade me falta mas, devemos ser realistas e saber fazer opções, aprender a privar-nos de algumas coisas de que gostamos.

MOC: Um dia agradeceste-me por te ter defendido publicamente, (no que era defensável). Sentiste-te traído por muitos que se diziam teus amigos?


CP: Claro que sim. Sabes, durante alguns anos orbitei no universo paralelo da política. Comecei por convicção, por sentido cívico. Mas depressa esse mundo, com regras muito próprias, nem sempre as mais corretas, foi-se impregnando em mim. Talvez por ingenuidade, talvez por inconsciência ou eventualmente uma ponta de ambição. 

As regras desse mundo são bem diferentes das que nós defendíamos . Aliança em vez de amizade, a mentira (desde que politicamente correta) em vez da verdade, a traição (desde que nos traga vantagem) em vez de ajuda.
Nesse mundo, a amizade existe, mas é coisa rara e, por vezes o medo da perda de confiança politica fala mais alto que a vontade e cala vontades que devem continuar escondidas.
Talvez por tudo isso, poucas  vozes desse universo ousaram sair em minha defesa. 
Era muito mais fácil ajudar a enterrar-me que me dar a mão para me ajudar a levantar.
Perdoa-me aqui a ousadia de citar um excerto do maravilhoso texto  “Quase poema... ou dos rebanhos da política” do nosso amigo Fernando Calado, um homem livre e de bons costumes:
“... Nada... não se faz nada... o melhor é ficar no rebanho... é o melhor... sem a maçada de dizer não.. sem o incómodo do pensamento... sem a estranheza apocalíptica da ovelha morder o pescoço de Cão.
... ficar... balindo... balindo... e não fazer mais nada.
O pastor é que gosta de um rebanho assim... amigo do seu pastor... manso... com medo do lobo! “
Contrariamente, houve alguns “teimosos” que se estiveram “nas tintas” para o politicamente correto e, certamente fartos do que ouviam dizer e escrever sobre mim, muitas vezes exagerado ou injusto,outras vezes completamente falso, vieram a terreiro, cada um com os meios de que dispunha, dar luz à verdade. 
Tu foste um deles e por diversas vezes. O Antonio Afonso foi outro. Através da escrita, vós viestes várias vezes a terreiro, defender-me, no que era defensável, evidentemente e, no uso do direito que a nossa velha amizade vos confere, “puxar-me as orelhas” nos aspetos em que eu errei. 
Na linha da frente, esteve sempre a minha família:  a minha irmã , o seu marido e os filhos, os meus primos e tios. E não foi nada fácil para eles, tal era a quantidade e intensidade do achincalhamento público e das enormes mentiras de que eu fui alvo. Nós somos uma família muito solidária e, quando “toca” a um, toca-nos a todos.
Outros Amigos o fizeram de forma diferente, nos seus círculos familiares, sociais, profissionais, nas tertúlias...
Grupo de colegas na noite de Natal 2008
Outros ainda, o fizeram no tribunal , como o Luiz Canotilho, o Luis Filipe, o Artur ou a Isabel Castro , afrontando  sem preconceitos um certo “clã” que estava presente para assistir ao meu “enterro” . 
Um pensamento muito profundo também para os muitos meus queridos alunos da época que, não temendo possíveis represálias, organizaram diversas manifestações de solidariedade para comigo.
Mas, ao fim destes anos todos, prefiro guardar nos anais das minhas memórias as manifestações de solidariedade, de amizade, de estima, de reconhecimento, de ajuda e guardar num recôndito canto, num baú fechado a sete chaves, todas as traições, o abandono, o menosprezo, o enxovalhamento de que fui alvo por parte de muita gente. 
Não guardo rancor, mas deceção.

MOC: A tua atual atividade profissional tem alguma coisa a ver com a que desempenhavas em Bragança?


CP: Nada. Mesmo nada. Depois de algumas atividades profissionais diversas, acabei por integrar uma empresa multinacional no domínio da indústria química e participo na gestão e execução de projectos um pouco por todo o mundo, essencialmente no domínio petrolífero.

Neste mundo, novo para mim, muito mais importante que os diplomas, é a capacidade de saber fazer e aprender, e essa é avaliada dia a dia pela qualidade do trabalho  ou da prestação produzidos. As competências reais são muito mais valorizadas que os “canudos”, o ser mais que o parecer, o fazer mais que o dizer. Um mundo onde as pessoas se  tratam pelo seu nome próprio e não pelo prefixo académico. 
Não, não é o paraíso... Apenas um mundo menos hipócrita.

MOC: O F.A.O.J nunca nos sairá do coração. O que era o F.A.O.J.?


CP: No n° 50 da Rua Direita estava a casa onde a magia acontecia. Era o O F.A.O.J., uma espécia de auréola de criatividade, de animação, de amizade. Hoje, com as novas terminologias, chamar-lhe-íamos talvez um “nicho de produção artística”. Havia “ateliers” de quase tudo: de teatro, música, expressão corporal, pintura, escultura, jornalismo, serigrafia, fotografia, cinema, aeromodelismo, fantoches, animação cultural, etc, etc. Uma fonte inesgotável de jovens, uns menos jovens que outros, que acreditavam que, um dia, poderiam mudar o mundo ou, pelo menos, torná-lo um pouco melhor. E conseguiram ! ! ! 

Na época era uma fonte inesgotável de “milagres artísticos” . A milhares de jovens foi dada, durante anos, a oportunidade de aprender, de desenvolver, de partilhar as suas potencialidades nos mais diversos domínios, das artes às letras, da informática ao aeromodelismo, do jornalismo à proteção do património...
Por lá passaram muitos dos futuros “fazedores” e transmissores de arte da região e não só, pois alguns “bateram asas” e rumaram para outras paragens onde deram cartas, onde conseguiram impor-se nos mais diversos domínios. Jornalistas, músicos, cantores, atores, artistas plásticos, oriundos da nossa região e que passaram por esta “escola” tiveram reconhecimento ao mais alto nível.
Outros, preferiram teimosamente continuar a “militar” no nosso berço geográfico, remando contra marés cada vez mais fortes que teimam em segregar as nossas terras das nossas gentes.
Seria injusto da minha parte não mencionar a importância do papel de algumas pessoas que fizeram  a espinha dorsal desta instituição ao longo dos anos. Em primeiro lugar o grande “motor de arranque” deste sonho, seu mentor e implulsionador durante vários anos, o Padre Dr. Sobrinho Alves (um verdadeiro lider da juventude daquela época, que sabia melhor que ninguém estimular a criatividade e a vontade de aprender, descobrir o potencial de centenas e centenas de jovens que passaram sob a sua maestra batuta) e, mais tarde, alguém que soube, em boa forma, dar continuidade ao seu projeto, o nosso amigo Armando Queijo.
Depois, tantos outros que deram corpo e vida a este projeto, como tu, Henrique Martins, o Gino, o Max, o Vilela, o Filipe Lobo, o Nando, o Jorge, o Marcelino, o Luis Neves, a D. Celina e tantos, tantos outros que seria aqui fastidioso enumerar.
Todos fazíamos um pouco de tudo. Todos éramos capazes de fabricar e dar vida a um fantoche, de incorporar um qualquer personagem numa peça de teatro, de utilizar uma câmara fotográfica e depois revelar as fotografias, de pintar cenários, fazer a eletricidade no palco, tocar os mais diversos instrumentos e acompanhá-los cantando... 
Naqueles anos, a TORRALTA era o nosso terreno privilegiado. Quantos concertos, espetáculos de variedades, de teatro, festivais de canção, animações, festas de Natal... produzimos naquele “santuário”?  Tantos...quase sempre “casa cheia”! E tinha mais de 500 lugares sentados!
Lembras-te da nossa participação no concurso Formula J da RTP? Claro que sim, pois, não há ainda muito tempo, publicaste neste teu blog um artigo acompanhado de video sobre a nossa participação. O nosso amigo Antonio Pereira, o nosso especialista em informática,a interpretar um personagem do Mestre Gil Vicente e, minutos mais tarde, a acompanhar brilhantemente no metalofone as vozes de prata da Fátima Lameirão e da Paula Machado, dando corpo e alma à canção (que eu compus) e com a qual ganhámos à equipa adversária! 
O F.A.O.J. era tudo isto e muito mais...uma verdadeira caixa mágica de onde saíam as mais variadas e inovadoras produções, que proliferavam depois por toda a nossa região, muitas vezes aos mais recônditos lugares onde mesmos os automóveis se faziam ver raramente. Mas, claro que o velho jipe PORTARO, com o amigo Orlando ao volante, chegava sempre, repleto de gente, de adereços, de instrumentos...que faziam a alegria dos jovens e menos jovens que nos esperavam.
Recorda-me uma vez, que tinhamos de ir fazer uma projecção de um filme (em 16 mm) numa pequena aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros. O jipe estava já destinado a outra tarefa e nós, o Zé Rui, o Minhoto e eu, ainda não tínhamos carro, provavelmente nem mesmo idade para ter carta de condução. Mas isso não era problema. Metemo-nos no comboio e lá fomos até à estação mais próxima. Só que não era assim tão próxima... e lá tivemos de transportar às costas, a máquina de projeção, que pesava uns bons quilos, mais os altifalantes e as bobines, durante mais de 3 Km e em pleno pico do verão. Era assim que se levava a cultura às nossas terras e às nossas gentes, num tempo em que não existia a Net, nem os telemóveis e mesmo as televisões se faziam raras. Lá íamos, sem reivindicações, sem conflitos e sempre com um sorriso que era sempre amplificado nos sorrisos das caras que nos esperavam. 
E depois, não raras vezes, ao fim de um longo dia repleto de diversidade, íamos fazer o “debriefing” como agora se diz, no café “Alcateia” (diante duma “punheta de bacalhau” e algumas “bejecas”! Quando havia tempo, porque não, uma partidita de “sobe e desce” para desenvolver o “cálculo mental” , jogo no qual tu eras mestre!!!


Algures...pelo mundo
MOC: Queres falar-nos do que é o antro em que se movimentam os políticos?

CP: Não. Prefiro esquecer  e “olhar” para o outro lado.


MOC: Ponderas, vês a possibilidade, de um dia, regressar à tua terra?


CP: Não. Pelo menos de forma definitiva. Porque regressarei eu a uma terra que me obrigou a partir, e onde, de tal forma humilhante e ingrata fui tratado ?

Bem sei que muito tempo já passou (perto de  20 anos) e que, aquilo porque eu fui tão agressivamente humilhado, uma falsa habilitação académica, tornou-se pouco tempo depois, uma quase “banalidade” entre os meios políticos, entre pessoas com as  mais altas responsabilidades nacionais. 
Depois, sinto-me bem como “cidadão do mundo” , gosto de partilhar o meu saber e ao mesmo tempo continuar a aprender com as pessoas de outros povos, de outras culturas através deste mundo, que me parece agora bem mais pequeno e frágil . Por outro lado, sinto uma dívida de reconhecimento ao país que me acolheu, onde tive a oportunidade de recomeçar, a partir do zero, uma nova vida, com novos meios, com novos objetivos, com novas gentes.

MOC: Queres contar-nos a tua versão dos acontecimentos que te levaram para tão longe da terra que amas?


CP: Não é simples. Citando François Mauriac: “No tribunal da nossa consciência, apenas convocamos as testemunhas de defesa “.

Mas com o recuo do tempo já decorrido, vou tentar ser objectivo.
Naquela época , durante anos não existiam diplomas universitários de Música. A habilitação para o ensino da Educação Musical  nas escola oficiais era conferido por algumas instituições particulares cuja formação era reconhecida pelo Estado e ainda pelos conservatórios de música, estatais ou privados. Foi assim que obtive a habilitação necessária para ingressar no ensino oficial (e não com um diploma de Mestre de Banda -formação que eu nunca tive-, como foi escrito na época por um jornal local). Durante os primeiros anos na Escola do Magistério Primário, com o estatuto de professor convidado. Depois no Ensino Preparatório, carreira que segui durante alguns anos, onde obtive o posto de professor efetivo, após ter concluído o estágio pedagógico, modalidade Formação em Serviço, na Escola Superior de Educação de Bragança.
Logo no ano seguinte e durante vários anos, fui convidado pela direção da Escola Superior de Educação a lecionar nesse estabelecimento, num primeiro tempo em regime de acumulação e, mais tarde, em regime de destacamento.
Nessa época havia em todo o País uma falta enorme de professores de Educação Musical no Ensino Preparatório, com particular incidência no nosso distrito. Grande parte professores de Educação Musical eram padres ou ex seminaristas, pois a frequência dos seminários católicos conferia também a habilitação necessária para a docência.
Foi então que a Direção da Escola Superior de Educação me propôs de apresentar um projeto de criação do Curso de Formação de Professores de Educação Musical.
Apresentei o projeto que foi aprovado pelo Ministério da Educação.
Atuação do Cantus Noster
Começara a era das licenciaturas em Educação Musical. Mas quem formava esses novos licenciados nas Disciplinas da área de Educação Musical? Na quase totalidade dos casos, eu e outros colegas que, como eu, não possuíamos esse grau académico, pois ele ainda não existia, mas apenas habilitação artística. Algumas exceções para alguns docentes que tinham uma licenciatura em qualquer outra área e também a hablitação artística. 
Após aceitação da minha candidatura, iniciei então o doutoramento na Universidade de Valladolid. Terminei a parte curricular com elevadas classificações e iniciei a minha tese, para a qual passei vários anos de investigação e escrita . Avançava lentamente pois a minha atividade profissional e ainda mais o aumento das atividades políticas ocupavam-me cada vez mais tempo.
Finalmente terminei a redação da minha tese. Mais de 500 páginas (526 precisamente), que foi apresentada  e verificada mais tarde pelo Tribunal, durante o meu processo judicial.
No entanto, essencialmente por falta de tempo, acabei por nunca apresentar a defesa da tese na universidade.
O tempo ia passando e a pressão do lado institucional era enorme . Estávamos na era da afirmação do Instituto Politécnico de Bragança e os ataques em detrimento ao corpo docente vinham de todo o lado, particularmente da classe política. Eu coordenava então o Departamento de Música da ESE.  Era imperioso que eu obtivesse o grau de doutoramento.
E foi então que cometi o maior erro da minha existência. Alguém me disse: porque não apresentas um diploma forjado, como aliás outros (competentes profissionais, alguns eram pessoas que eu conhecia, mas que estejam descansados, pois eu jamais revelarei o que sei) já o fizeram? E eu caí na tentação ...
Pequeno parênteses:  Tentação que não era tão rara assim. Vieram mais tarde a terreiro situações similares ( com bem menos consequências pessoais que a minha )  de pessoas com muita mais exposição pública e responsabilidades que eu, ministros, primeiro ministro ... 
A partir daí a historia é conhecida. Pouco tempo após a apresentação desse diploma falso, uma denúncia anónima (mais tarde eu soube de onde veio...e não foi a pessoa que me forneceu o diploma) desencadeou todo o processo que culminaria com a minha demissão e erradicação do ensino público.
Minhoto, Zé Rui e Chico
Foram meses de sofrimento, de traições, de achincalhamento público (expressão aliás utilizada e veemente condenada pela Delegada do Ministério Público durante o julgamento) de artigos parcialmente ou mesmo completamente falsos que saíam na imprensa escrita e falada. Eu era uma presa a abater e, quanto mais “barulho” se  fizesse, melhor.  O linchamento na praça pública estava em marcha, para gáudio de muita “gente”. Era a “ (in) justiça popular” de certos media . Os mesmos que durante muitos anos e mesmo apenas alguns dias antes, pediam a minha colaboração nas mais diversas áreas, dadas as minhas multifacetadas atividades.
Felizmente, o  Tribunal foi muito mais rigoroso e justo para comigo. Eu cometi um erro e fui julgado e penalizado por esse , e só esse, erro. Justiça foi feita.

Chico, muito obrigado por me teres concedido a presente entrevista.
Grande abraço e até sempre.
Henrique Martins


15 comentários:

Luís Silva disse...

Foi meu professor na ESE em 96 e guardo na memória aulas espetaculares. Grande abraço, professor

Maria disse...

Querido Chico, como li avidamente a tua entrevista e como te reconheço no amigo de sempre, no contínuo "fazedor de obra(s), um eclético, um bom, tão bom amigo dos meus filhos, que tantas vezes te lembram!
Fui sabendo de ti, durante muito tempo através da tua querida irmã, mas ultimamente não nos temos visto e bem-haja o Henrique por esta entrevista.
Como gostava de falar contigo! tens fbook? deixo-te o email (mluisa.mgoncalves@gmail.com).
Quando te apetecer liga-me, isto é, emaila-me....
grande abraço nosso

Teodoro Afonso Nunes disse...

Amigo Henrique.
Acabei de ler a entrevista que fizeste ao nosso amigo Chico Prada.
Estou deveras emocionado, pois não imaginaria a surpresa que iria ter esta noite; "ouvir" o amigo Chico! Sim "ouvir", pois as palavras escritas da entrevista levam-me aos tempos do convívio com ele, nas variadíssimas situações e ocasiões, principalmente ao Chico Político (Presidente da Comissão Politica Distrital do PS)e ao Chico Maestro/Regente de Coro (Diretor Artístico do Coral Brigantino).
Continua frontal e autêntico, tal como sempre o conheci!
Que Deus lhe dê toda a sorte do mundo.
Obrigado amigo pelo trabalho!
Teodoro Nunes

PS: Chico Prada, se leres este comentário aceita um grande abraço do teu amigo Teodoro.

Serafim Pires disse...

Chico, meu amigo Chico Prada ! Como fiquei agradavelmente Feliz por ler tão belíssima entrevista. Fiquei feliz por saber que o meu amigo Chico está bem e feliz e isso é o que mais importa. Lembrei sempre com muita saudade e como lamentei a tua ausência. Passei a tratar-te por tu sem querer ser desrespeitoso mas como fizeste sempre parte da minha lembrança , tenho-te como um amigo especial que nunca esqueci e sempre admirei. As qualidades eram sobejamente superiores e inquestionáveis e a tua companhia agradável e produtiva no aprender-te de tantas valências que te sobejavam e aos teus detratores tanto faltavam. Não, os teus amigos não te esqueceram e sempre foste lembrado com saudade e deixaste em nós um sentimento de lacuna que era difícil de preencher. Lembro daqueles voos em que algumas vezes te acompanhei na vigilância aérea florestal e das tais aterragens "para grávidas" que tão magistravelmente executavas. Lembro com saudade aqueles concertos que fazias ao piano para os amigos com aquelas soberbas variações de improviso que a tua alma de artista tão bem executava. E o teu humor sempre oportuno e acutilante que nos deixava perplexos e rendidos á tua inteligência ? E os muitos bons momentos que connosco partilhaste ? Chico quem ficou a perder com a tua ausência não foste tu, não! Foram os teus amigos e essencialmente esta cidade. Todos, aqueles que te conhecemos sabemos bem o quanto te devemos e a falta que nos fazes. Oxalá que tenhas a recompensa á tua grande generosidade, quase tenho a certeza que sim . Tenho a certeza que nesse teu novo mundo muitos amigos terás , pois ninguém ficará indiferente a tua generosidade e genialidade. Um grande abraço do Serafim Pires que um dia gostaria de te dar um abraço. Felicidades bom amigo.

miguel monteiro disse...

Se bem me lembro...grandes conversas,grandes elogios saíam do fundo do meu ser.
Quanto ao Prada,só posso enaltecer as suas qualidades ,um humano que transplantou o desejo de muitos agoiros.
Com a sua forma de humildade,conquistava corações famintos de aprender.
Nomes de alguns como eu,que travamos uma forte amizade e um reconhecimento fraterno,Queijo,Calado,Urbino,Lhano,Julio Meirinhos,
tantos...
Prada a cidade perdeu um homem com grandes valores.
Mas depositou a malvadez naqueles que nada conseguiram ser ,naquelas que a vida nada lhe deu...
Um forte abraço
Miguel Monteiro

Manuel Esteves disse...

caro amigo prof.Chico Prada:
Fico feliz por sabe-lo bem de vida e saúde,e faço votos para que assim continue,nunca fui do seu circulo de amigos mais chegados,mas temos em comum grandes amigos como é o caso do Henrique,e por isso me habituei a ter respeito e admiração por si,tendo em conta o inigualável,enorme,prestigioso,trabalho em prol da cultura da nossa terra e suas gentes.Por isso,e lamentando naturalmente tudo o que se passou de menos positivo,sei que a nossa querida Bragança perdeu um dos seus melhores filhos,e que a pesar de tudo a si muito deve esta terra.
Prof.Prada,sou um simples,e modesto cidadão Bragançano com apenas a habilitação que a 4ª classe de 1967 me conferiu,mas com o discernimento suficiente para reconhecer a enorme injustiça moral que consigo foi praticada,que levou á irreparável perda cultural,e profissional para a nossa terra.
Assim,e citando o Evangelho,"Quem não tiver pecados,que atire a primeira pedra",quero aqui expressar a minha humilde solidariedade,e dizer-lhe que será um dia,com muito orgulho,e publicamente,um enorme prazer dar-lhe um grande abraço,em reconhecimento por tudo quanto fez de bom por esta terra,onde continuam a proliferar ingratos injustos e hipócritas,mas Deus é grande,e a sua justiça tarda mas não falta.
GRANDE ABRAÇO PROF.PRADA
Manuel Esteves (o Bombeiro )

Marco Vieira disse...

Antes demais um grande e saudoso abraço ao Prof. Chico Prada. Tive o prazer e o privilégio de ser seu aluno nos anos 80.
Fico feliz por saber que está bem de saúde e que a vida lhe sorri.
Até um dia,
Marco Vieira

Sónia disse...

O meu professor de música...muitas saudades
Fico feliz em saber que está bem.

Anitudes Angola disse...

Um grande abraço ao magnífico professor Prada. Durante os anos que estudei na eseb e fui presidente da associação de estudantes, sempre esteve disponível em colaborar connosco. Um bem haja professor. Abraço do sempre amigo Tobe!

Antero Santos disse...

Francisco Prada foi o MELHOR PROFESSOR que o meu filho teve, em todos os aspetos. É por nós recordado com muito respeito e admiração. A minha casa estará sempre aberta para o recebeu. Obrigado

Óscar O.B disse...

Francisco Prada meu professor na Ese de Bragança. Excelente professor , Além de saber o que fazia as aulas eram sempre fantásticas e explorava o melhor que os alunos tinham musicalmente dentro de si. Tenho imensa pena que tenha sido "crucificado" pelo povo que o viu nascer , sendo ele um homem culto mas acima de tudo excelente profissional. Um abraço de um ex-aluno Óscar Barroso.

Bel Viana disse...

Meu querido amigo! Daqui é Bel Viana! Que bom saber de si!!! Tantas saudades!....Aqui fica o meu mail, gostaria tanto de continuar a saber do meu querido e para sempre amigo!!! -belaninho@gmail.com










Unknown disse...

Chico Prada, que bom saber que estás bem e de saúde!
Foi emocionante ler esta entrevista e relembrar tantos e tantos episódios que tive o grato privilégio de partilhar. Fui sempre perguntando por ti à tua irmã e aos teus sobrinhos, mas esta entrevista (obrigada Henrique) foi uma grata surpresa. Melhor, melhor, só se te encontrasse para te dar um abraço e dizer-te, de viva voz, como fico feliz por estares bem.
Nunca deixarás de estar connosco, nos nossos corações, pelos laços da amizade!
Helena Subtil

Sergio disse...

Caro Prof. e Amigo Francisco Prada
Quero aqui deixar-lhe um grande abraço e dizer-lhe que tenho saudades dos tempo da ESE Piaget (1997 a 2000).
Pertenço ao quadro de agrupamento de Escolas Manuel Teixeira Gomes em Portimão. Quando estiver por estas bandas podemos encontrar. Um grande abraço.
Sérgio Madeira - 938450240

Alexandre Castro disse...

Henrique. Do muito já falado e sem me querer alongar: apenas dizer que comungo da opinião do Jorge Palma! Um abraço para o Xico Prada.