quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O GAROTINHO BRAGANÇANO

Por Humberto Pinho da Silva
(colaborador do Memórias...e outras coisas)
Não sei se já vos falei de amoroso menino, que conheci, nos anos sessenta, na velha cidade de Bragança.
Tinha a cabeça coberta de farto e fino cabelo; cabelo macio, escorrido, de nuances em ouro velho, que lhe descia até aos ombros. Rosto oval. Pele branca, cetinosa, ligeiramente tostadinha. Olhos vivos e meigos. Lábios bem desenhados. Pescoço alto e esbelto; e cândida expressão, que cativava.
Foi meu companheiro. Companheiro dedicado, com quem passei largos e longas horas de ameno convívio fraternal.
Certa ocasião, após ter vindo, definitivamente, para a cidade do Porto, hospedei-me em modesta pensão bragantina, cuja fachada era fronteira à velha estação ferroviária.
Após o almoço, inesperadamente, surgiu-me, num lanço das escadas, que comunicavam com os quartos, sorrindo. Sorriso lindo, que jamais pude esquecer.
Admirei-me da insólita presença, e indaguei, curioso, a razão de me esperar:
- “ Olá! Então por aqui?! …”
Num trejeito juvenil, disse-me, encolhido, titubeando:
- “ Minha mãe pediu-me para o vir buscar, e ajudá-lo a levar a mala… – Explicou, de mãos enlaçadas, balanceando o corpo.
Agradeci, penhorado, a gentileza, e cortesmente, esclareci que não pretendia incomodar.
- “ O primo Humberto nunca incómoda! …Assim ficamos todos juntos…”
Fiquei sem palavras. Emocionado. Sabia que falava com sinceridade. Os olhos não enganavam…
Não o deixei trazer a mala, como queria. Mala antiga, de cartão endurecido, de cor acastanhada. Insistiu. Recusei. Vencido, acompanhou-me em silêncio.
Ao cruzarmos a Praça da Sé, junto ao Café Central, voltou-se para mim, e, timidamente, declarou:
- “ Minhas irmãs estão ansiosas de o ver…”
Este rapazinho, de bondade e sensibilidade extrema, foi o meu companheiro predileto; amigo sincero e leal, nos anos, que, por obrigação, permaneci na sua velha e encantadora cidade.
Decorrido um bom par de anos, após a derradeira visita, que fiz, encontrei-o, já adolescente, na bonita aldeia de seu pai.
Avizinhou-se, numa tarde abafada de Agosto, com a mesma simplicidade de sempre, e convidou-me para acompanhá-lo a bonito prado, onde pesada vaca, malhada, branca e preta, pastava pachorrentamente, com chocalho barulhento.
Deitamo-nos na relva fofa, mirando o céu azul – onde vagavam pequenas e esfarrapadas nuvens brancas, – sob frondosa e farfalhuda figueira. Uma andorinha, num voo baixo e elegante, rasgou o ar, pairando sobre a relva.
Raios doirados do Sol, crivados pela espessa e fresca ramagem, manchavam-nos o rosto de sombras escuras e claras. Enorme e acolhedora paz, envolvia-nos. Calor de rachar! …Cantavam, não sei onde, à compita, cigarras e grilos – gri, gri.gri…; crass,crass…zzz…- quebrando o murmúrio do silencio.
Os cavalos – que nos transportaram – libertos do selim, espojavam-se, retoiçando e relinchando, alegremente, na relva verde-escura. Ao longe, ladravam cães, e chegavam vozes imperceptíveis, de mulheres e crianças.
Conversamos sobre a canícula, que tudo secava; da beleza de viver à beira-mar; e da tumultuosa vida citadina.
Disse-lhe, então, que dentro de dias tinha que regressar.
- “ E não vai a Bragança?! – Indagou, com pontinha de censura.
- “ Não. Parto diretamente para o Porto.”
_ “ Fique mais uns dias! …A mãe, e minhas irmãs, também gostam muito do primo…”
Não fiquei. Não podia. Na hora da despedida, abraçou-me, beijou-me, e não sei se chegou a chorar.
Fiquei com a sensação – talvez errada, – que me queria dizer, muito baixinho: “ leve-me consigo…”
Soube, mais tarde, por meu irmão, que havia falecido, de forma trágica.
Fiquei triste. Muito triste…
Triste, por não o ter visitado mais vezes. Triste, porque amizades assim, nunca mais encontrei. 
Escrevo, esta crónica, ao cair da tarde. Em breve, para as verdes várzeas do Candal, o céu azul, alaranjar-se-á; e tonalidades quentes de vermelho-sangue e amarelo-ouro-esverdeado, pintarão o azul desmaiado do céu, desta tórrida tarde de Verão.
É o pôr-do-sol. Espetáculo apoteótico de luz e cor. Extasiante; sempre renovado e belo, que encanta, e deixa paz na alma angustiada.
O Sol sempre nasce e sempre morre; morre e nasce todos os dias: iluminando, dando vida e cor à Terra.
Mas…Ai de mim! …, que, vertiginosamente, caminho para as derradeiras cores do meu crepuscular…
Em breve chegará a noite negra; mas enquanto não vier o sono, viverei dos lindos sonhos, que vivi, e dos que não vivi, mas gostaria de os ter vivido…
Recordando companheiros que partiram… mas vivem, eternamente, dentro de mim; e os que ainda não partiram… mas já me sepultaram no esquecimento…
Este garotinho não morreu: repousa no meu coração saudoso: sempre jovem, sempre sorrindo, sempre a dizer muito baixinho à minha alma contristada: “ Gosto muito do primo! …”

Humberto Pinho da Silva nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG”. e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".

Projetos mais inovadores apurados no Poliempreende

Os projetos dos Institutos Politécnicos de Setúbal, Cávado/Ave e de Bragança foram os vencedores do Concurso Poliempreende, cuja 14ª edição se realizou na cidade transmontana entre os dias 12 a 15 de setembro.
O primeiro prémio foi para o projeto ‘Ilegal' do IP de Setúbal; o segundo para ‘Célia Celíaca’ do Instituto IP Cávado e Ave; e o terceiro foi para ‘Zthreat’ do IP de Bragança.
Durante uma esta semana Bragança foi a capital portuguesa do empreendedorismo devido o PIN-Polientrepreneurship Innovation Network, uma plataforma que tem por objetivo criar uma cultura empreendedora, que levou a concurso 19 projetos inovadores desenvolvidos por jovens, de diversas áreas de atividade.  
A iniciativa contou com um total de 38 promotores de todos os institutos do país.  

Glória Lopes
in:mdb.pt

Maior número de detenções da PSP foi por condução em estado de embriaguez

Nos meses de Verão a PSP deteve 15 pessoas por condução em estado de embriaguez, num total de 39 detenções efectuadas entre 15 de junho e 15 de Setembro, no âmbito da Operação Verão Seguro, adiantou uma fonte do comando de Bragança.
As restantes detenções foram motivadas por vários crimes, nomeadamente quatro em cumprimento de Mandado de Detenção; oito por suspeita de tráfico de estupefacientes; 12 por outros motivos (três por furto, quatro por falta de carta, duas por agressão ao agente, duas por passagem de moeda falsa, e uma por posse de arma ilegal), revelou a mesma fonte.
Também os crimes por tráfico de droga estão entre os que maior número de detenções originou. Esta terça-feira, a PSP deteve um homem, com 42 anos, em Mirandela,  por suspeita do crime de tráfico de estupefacientes, a quem foi apreendida uma viatura, um telemóvel e produtos considerados drogas, suficientes para 76 doses individuais, informou o comando de Bragança.

Glória Lopes
in:mdb.pt

As ruas não se medem aos palmos

O algodão não engana e no caso da Travessa da Misericórdia, em Bragança, a lente da máquina fotográfica também não.
Afinal, uma imagem vale mais do que mil palavras, logo aqui fica uma fotografia ilustrativa de como nem todas as ruas merecem o mesmo tratamento ao nível da limpeza. Nesta travessa, pelo menos quando por lá passa o Zé, é frequente o cocó de pássaro no chão. 
Já diz o povo "cantam os melros, calam os pardais".

in:mdb.pt

Enfermeiros Protestaram em Mirandela

Os cerca de 50 enfermeiros, realizaram uma vigília em frente ao hospital de Mirandela  onde apresentaram cartazes de protesto.

Paulo Bragança revela exílio de 11 anos em que foi funcionário público e professor de filosofia

Cantor está de volta a Portugal para retomar o seu lugar no fado.
Foto: Pedro Ferreira
O fadista Paulo Bragança está de volta aos palcos portugueses e prepara um novo disco. Conta em entrevista o que andou a fazer durante a mais de uma década em que esteve afastado de Portugal. 

Porque é que estivemos tanto tempo sem ouvir falar do Paulo Bragança?
Porque estive fora de Portugal quase onze anos, seis deles em exílio absoluto. Parti em 2006 e quando dei por mim já tinha passado este tempo todo. Se antes disso me dissessem que eu ia estar tanto tempo longe do meu país, eu diria que era um absurdo. 

E porque é que partiu? 
Por desencanto e por desilusão. 

Desilusão? 
Sim. Desilusão pela indústria da música e pelos ‘lobbies’ que tanto podem construir um artista como destruí-lo. A experiência que tive foi um bocado infeliz. Confiei demais. 

E o que é que andou a fazer durante onze anos fora de Portugal? 
Eh, pá! No primeiro ano andei a deambular pela Europa, andei muito pela Roménia e por várias cidades de Leste, mas acabava sempre em Londres. Um dia, estava muito aborrecido porque não conseguia criar empatia com Londres, apanhei o comboio e o ferry e fui para Dublin. Cheguei lá ao final de um dia medonho. Eram seis da tarde mas parecia noite. O tempo lá é sempre assim. Aquela é a terra dos eternos invernos. Nem os romanos lá quiseram ir (risos). 

E porquê Dublin? 
Na altura, eu tinha lido um artigo numa revista que dizia que a Irlanda é o país do mundo com mais prémios Nobel da literatura. E isso interessava-me, até porque eu tinha-os lido a todos. E pensei: nem é tarde nem é cedo. Cheguei lá e fiquei deslumbrado com a cultura e com a forma de vida. Lá, toda a gente canta e toca. Numa só noite, há mais vida em Dublin do que em Portugal inteiro. E com o tempo acabei por assentar lá. Até tirei um curso em Estudos Irlandeses. 

E durante este tempo nunca quis ter notícias de Portugal? 
Durante seis anos estive no anonimato absoluto. Quis que fosse assim. Cortei com tudo. Não tinha contactos de ninguém. Precisava mesmo de estar comigo e de levar com um banho de realidade. Posso dizer que na primeira noite que cheguei a Dublin fui dormir num hostel, um tipo de espaço onde eu nunca tinha entrado. No dia seguinte, fui à casa de banho e quando regressei ao quarto tinham-me roubado tudo. Fiquei sem o pouco que ainda tinha. 

E nunca comunicou a ninguém onde estava? 
Não. Estive completamente isolado. Até deixei de ouvir música e de escrever. Mais tarde, tive a sorte de conhecer uma família que era proprietária de um castelo e que me deixou ficar lá a viver ao longo de ano e meio. Era um castelo cheio de mistérios e barulhos. Metia muito respeito. E foi nesse período que desci às entranhas de mim mesmo. 

E nunca ninguém o procurou, nem amigos, nem família? 
Mesmo que tivessem tentado, não tinham conseguido encontrar-me. Cheguei a fazer um pacto com a embaixada para só comunicarem o meu paradeiro se me acontecesse alguma coisa. 

E como é que a sua família lidou com esse silêncio de tanto tempo? 
Eu já os tinha preparado. Quando me despedi da minha mãe, a partir de Madrid, disse-lhe mesmo que podia ser um adeus sem volta. 

Durante o tempo em Dublin, fazia o quê para ganhar a vida? 
Bem! Eu nunca liguei nenhuma a dinheiro. Para mim, ele existe para se gastar. Se fosse preciso, até ia lavar pratos, mas a determinada altura consegui um trabalho na câmara de Dublin. Estive lá algum tempo até ser dispensado por causa da crise. O caminho óbvio teria sido ir para o desemprego, mas eu não quis. Na altura, o governo irlandês tomou uma medida fantástica no sentido de proporcionar, a quem quisesse, o regresso à universidade. E eu fui estudar filosofia, tirei o mestrado e tudo. Até me convidaram para dar aulas. 

E nunca disse a ninguém que era cantor? 
É engraçado, porque um dia estava a fazer um trabalho para a câmara e houve uma colega que, do nada, me perguntou se eu gostava de cinema. Eu disse-lhe que sim e ela convidou-me para entrar num filme. Disse-me que eu era a pessoa certa. 

Que filme era? 
Era uma curta-metragem independente chamada ‘Henry & Sunny’, mas que ganhou vários prémios e se tornou num filme de culto. Chegou a ser exibido no Fantasporto. O realizador, que se chama Fergal Rock, está neste momento a fazer uma longa--metragem num dos grandes estúdios de Hollywood. 

E nesse filme qual era o seu papel? 
Era o papel principal, curiosamente de um palhaço desempregado que é ostracizado. É um filme muito engraçado. É uma tragicomédia em que eu, o palhaço, me apaixono por uma grande atriz. Foi nessa altura que eu abri pela primeira vez o livro e disse quem era. Eles foram ao Google à minha procura e ficaram surpreendidos com o que encontraram. Chegaram ao pé de mim e perguntaram-me o que é que eu estava ali a fazer. 

E o que é que Paulo lhe respondeu? 
Disse-lhes que estava a tentar fazer alguma coisa pela vida (risos). A verdade é que depois daquele episódio eu não pude negar mais quem era. E os convites para cantar por lá começaram a chegar. 

Regressou a Portugal em abril. Qual foi a primeira coisa que fez? 
Foi ir a Alfama e ao Sr. Vinho. Nem podia ser de outra maneira, até porque tenho um enorme carinho pela Maria da Fé [proprietária do Sr. Vinho]. Queria ver o que se estava a passar e rever muitas pessoas. 

E como é que foi recebido? 
Com um enorme carinho. Houve pessoas que nem reconheci logo e que me trataram muito bem. Não notei qualquer cinismo. Acho que foi tudo muito genuíno. 

E já conseguiu formar opinião sobre o que se está a passar no fado? 
Sim. Acho que se estão a fazer coisas muito interessantes. O que me apetece dizer dizer é: ‘Abram, abram, continuem a desbravar’. Acho que finalmente estão a cair certos preconceitos que não tinham razão de existir. 

E o Paulo foi bem vítima deles! 
Sim, pois fui. Eu levei com tudo em cima, ou porque metia instrumentos que não devia ou porque cantava descalço. De lá para cá quantos já apareceram a cantar descalços? 

Durante muito tempo, o Paulo foi uma espécie de mal-amado do fado! 
Eu nunca me senti mal-amado. Eu entrava numa casa de fados e toda a gente me pedia logo para cantar. Eu até me senti enquadrado. Diretamente, nunca ninguém me apontou o dedo. Hoje, à distância, claro que tenho de reconhecer que ousei fazer algumas coisas para as quais as pessoas não estavam preparadas. Tive de levar com a fatura. Mas tudo bem. Não guardo ressentimentos de ninguém. E mesmo que guardasse, estou numa fase da minha vida em que não quero perder tempo com isso. A vida é muito curta. 

Regressando agora, depois de um período de ausência, não sente que vai ter de começar do zero? 
Não. Não sinto isso. Eu tenho uma capacidade de adaptação muito forte. Depois de tudo o que passei, não posso temer nada. Há pessoas que têm talento, mas não têm estofo para isto, inclusive para estarem expostas às críticas. Esta vida não é só chegar ao palco, cantar e levar com as palminhas. Eu só tenho pena do que virá daqui a 100 anos. A isso é que eu já não vou poder assistir porque já não vou cá estar (risos). 

O que é que espera que venha a acontecer consigo agora? 
Nada de especial, a sério! Estou a preparar um novo disco, desde há quatro anos a esta parte com o Carlos Maria Trindade, que é uma pessoa com quem eu trabalho desde os anos 90. A única coisa que eu quero é ter a oportunidade de poder mostrar este disco. Para já, as coisas estão a acontecer e desde que vim já fiz vários espetáculos. No festival Bons Sons, onde cantei em agosto, acabei o concerto com crianças à minha espera para me pedirem autógrafos. Eram crianças entre os oito e os doze anos, com fotografias e com livros onde aparecia e que eu nem conhecia. Fiquei tão orgulhoso que me caiu tudo (risos). Aquilo valeu por qualquer cachet. Foi o meu maior prémio em muito tempo. 

E que disco é esse que vem aí? 
É um disco de originais que faz um pouco o resumo daquilo que foi a minha carreira. É o fechar de um ciclo e o abrir de outro. Claro que é um disco de fado, mas há outras coisas. Há uma espécie de triângulo Lisboa-Dublin-Istambul.

Miguel Azevedo
Jornal Público

Há obras nos castelos do Norte para não se dar com o nariz na porta

Potenciar os monumentos para a população e para os turistas: é este o objectivo da “Operação Castelos a Norte”. Um mês depois do arranque oficial, vai-se descobrindo o que o solo escondeu durante muito tempo.
A Direcção Regional de Cultura do Norte (DRCN) vai intervencionar cinco castelos, todos eles situados a norte, na região de Trás-os-Montes e Alto Douro. Chama-se “Operação Castelos a Norte” e arrancou oficialmente em Agosto mas vai prolongar-se, pelo menos, até ao próximo ano. É a primeira vez que estes castelos e fortificações, alguns deles raianos, vão ser intervencionados “com a dimensão da empreitada que agora será realizada”, adianta a DRCN.

A operação arrancou oficialmente com a intervenção no castelo de Montalegre, mas vai alastrar-se por territórios vizinhos. Junta-se àquele castelo do distrito de Vila Real, o de Monforte de Rio Livre (Chaves), de Outeiro (Bragança), de Mogadouro e de Miranda do Douro (ambos situados em concelhos pertencentes ao distrito de Bragança). O orçamento ronda os 2,3 milhões de euros e é co-financiado por fundos europeus.

“Cada um destes castelos e fortificações constitui um notável repositório de arquitectura, história, e património paisagístico”, diz, por escrito, a DCRN ao PÚBLICO. No entender da entidade, a disposição destes castelos pelo território pode “constituir mais um recurso importante para a sustentabilidade económica” das áreas que ocupam.
É com essa sustentabilidade em mente que a DCRN traça os objectivos destas intervenções: “potenciar o usufruto dos monumentos pela população local e pelos turistas que acorrem à região cada vez em maior número”. A DRCN registou, durante 2016, “uma subida de aproximadamente 82% em relação ao ano anterior”, em termos de procura nos monumentos e museus que supervisiona. Esse aumento de interesse por parte dos turistas é um dos argumentos para levar a empreitada avante. Todos os castelos intervencionados são monumentos classificados, pertencem ao Estado e estão sob a alçada da entidade.

O presidente da Câmara de Montalegre, Orlando Alves, dizia, na altura do início dos trabalhos oficiais, que são “milhares os turistas que todos os anos visitam Montalegre” e que quando chegam ao castelo dão “com o nariz na porta”. Um mês depois do início dos trabalhos arqueológicos no local — obrigatórios para a realização da operação — o presidente adianta que já “foram já encontrados vestígios do prolongamento da muralha do castelo”.

O autarca espera que, o mais tardar em 2019, a sala de visitas do castelo possa reabrir. Um desejo antigo da autarquia, que guarda na edificação e no Ecomuseu de Barroso — Espaço Padre Fontes as principais atracções turísticas para quem chega do outro lado da fronteira.

Noutro ponto do território transmontano, em Miranda do Douro, ainda se está em fase de aquisição de terrenos. Artur Nunes, presidente da câmara afirma que os segredos que o solo escondeu durante muito tempo podem vir agora a ser descobertos. “Durante 500 anos a ordem foi não mexer, agora a Direcção Regional entendeu que estava na altura de descobrir o material que se encontra enterrado”, afirma o autarca.
O castelo reserva ainda um papel estruturador na vida urbana da cidade. Esta valorização do património traz, como em Montalegre, a expectativa de mais dinamismo para uma região que tem registado “um aumento exponencial” de visitantes.
Todos os castelos intervencionados guardam uma importância especial já que foram palco de muitos episódios do passado militar de Portugal e, por isso, segundo a DRCN, “constituem elementos simbólicos de enorme relevância para a história da nacionalidade”. Exemplo disso é o castelo de Outeiro, situado no concelho de Bragança, que terá sido um importante ponto de vigia do Reino de Leão, durante a Idade Média, mas que, tirando pequenos ajustes, nunca tinha sido intervencionado. O castelo foi destruído no século XVIII e está em ruína. César Garrido, presidente da Junta de Freguesia, diz que “a ideia [por detrás da empreitada] é tornar a fortificação visitável”.

Esta não é a única intervenção “a norte” realizada pela DRCN, no âmbito do presente Quadro Comunitário de Apoio Norte 2020. Aos castelos, juntam-se catedrais e mosteiros, assim como operações na Igreja de Santa Clara do Porto e no Vale do Varosa. 

Pedro Castro Esteves
Texto editado por Ana Fernandes
Jornal Público

Campanha de prevenção da sinistralidade rodoviária contra animais teve acções em Mogadouro e Alfândega da Fé

Sempre que uma estrada é construída provoca grande impacto na natureza.
O biólogo Pedro Moreira assegura que muitos animais selvagens morrem e algumas espécies ficam em risco de extinção.
A Ascendi, concessionária do IC5 e do IP2, em conjunto com o Instituto da Conservação da Natureza e Florestas e com a Infra-estruturas de Portugal, está a implementar uma campanha pioneira no combate à morte de animais por atropelamento.
O objectivo é alertar os automobilistas para o perigo da falta de atenção na estrada.
Luís Trabulo, da Ascendi, espera que as crianças ajudem a influenciar os adultos e por isso este foi “um projecto pensado para os mais novos.”
O biólogo Pedro Moreira acrescenta que “ainda há muito trabalho a fazer” para que os condutores tenham uma atitude mais preventiva e consciente mas assegura também que as pessoas que começam a conhecer o projecto já dão muito mais atenção à protecção da natureza.

Duas das acções de sensibilização para que não se matem animais na estrada realizaram-se em Alfândega da Fé e Mogadouro, localidades abrangidas pelo IP2 e pelo IC5.
Para a próxima já sabe… quando encontrar um animal na estrada lembre-se desta campanha.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Debate autárquico com os candidatos à câmara municipal de Bragança

Esta manhã houve debate com os candidatos à câmara de Bragança, em discussão estiveram, entre outros assuntos, as propostas eleitorais de cada partido.
António Morais candidato pela CDU, defende que há três pontos essenciais a trabalhar para Bragança ser um concelho coeso.
“ Da necessidade de viver melhor no concelho de Bragança impõem-se duas ou três questões que para nós são fundamentais. O núcleo urbano, o meio rural, com destaque particular para a vila de Izeda, e o Parque Natural de Montesinho, dado que ocupa não muito espaço do ponto de vista geográfico mas também humano. Dada a importância destes três pólos que importa agir”, referiu na sua primeira intervenção.
Para Hernâni Dias, candidato pelo PSD, a coesão social também é uma prioridade mas fez questão de destacar que os resultados do seu primeiro mandato são positivos.
“O nosso programa assenta em três pilares estratégicos. A coesão social, a mobilidade e também a regeneração urbana, são essenciais para conseguirmos continuar a ter sucesso que temos vindo a alcançar em resposta às necessidades das populações, ao que são as suas preocupações do dia-a-dia, para que os cidadãos de Bragança continuem a ter a qualidade de vida que é reconhecida pelo exterior”, disse.
Quem não concorda com esta posição, de que o concelho tem evoluído, é Carlos Guerra, o socialista acha que é necessário devolver a centralidade a Bragança.
“ A cidade de Bragança perdeu completamente a centralidade regional e transfronteiriça, que lhe cabe por direito e tradição histórica. Essa centralidade só é devolvida se apostarmos na valorização dos nossos cidadãos, na qualidade de vida e na valorização da economia. A economia do concelho apresenta indicadores francamente negativos e nós gostaríamos de colocar como ponto fundamental daquilo que é a nossa proposta uma potenciação da nossa economia a partir dos nossos recursos endógenos”, sublinhou.
Para o candidato do Bloco de Esquerda José Freire, o problema central do concelho prende-se sobretudo com o despovoamento, que na opinião do bloquista, é urgente combater. 
“ A candidatura do Bloco de Esquerda vem para humanizar a política, as pessoas têm de estar em primeiro, principalmente aqui no distrito de Bragança, onde começam a ser raras. Temos de criar uma forma de termos as pessoas aqui no nosso concelho e de as fixarmos cá, para conseguir isso a câmara tem de dar o exemplo”, defendeu.      
Manuel Vitorino, que avança pelo PDR, foi mais duro nas palavras e refere que se candidata devido ao que considera ter sido um insucesso: a governação do actual executivo.
“As razões pelas quais me candidatei são precisamente as razões inversas que o actual presidente da câmara invocou. Falou no sucesso que tinha alcançado, eu candidato-me precisamente devido ao insucesso, devido à falta de proximidade, tão propalada no orçamento 2017, devido à falta de equidade e à miséria da locução que envergonha até quem vem de fora”, referiu. 
Por seu lado Francisco Pinheiro, que vai pelo CDS, vê como aposta forte para o desenvolvimento de Bragança o sector primário e no meio rural.
“ A cidade de Bragança é o que é porque temos 114 aldeias, que sempre trabalharam e a cidade cresceu quando o dinheiro e as pessoas das aldeias vieram para a cidade. Não podemos esquecer as aldeias porque é aí que se gera a riqueza e é daí que vem o dinheiro para manter a cidade. Vamos fazer uma aposta muito forte na agricultura, com a criação de uma divisão de recursos endógenos, para que todos os assuntos relacionados com a agricultura tenham na câmara municipal uma referência”, salientou.

Os ouvintes da rádio Brigantia aderiram em massa ao debate promovido, esta manhã, pela rádio que juntou os candidatos à câmara municipal de Bragança. Foram muitos os brigantinos que quiseram assistir e à saída do auditório manifestaram as suas reacções.
“Fiquei mais ou menos esclarecido, gostava de ouvir mais propostas do que aquilo que ouvi. Vejo que muitos candidatos não estão por dentro das necessidades e dinâmica da cidade mas, dentro do possível, foi esclarecedor”, disse o brigantino José Mateus.
“Fiquei esclarecida, acho que ficou claro aquilo que cada um defende e que esta linha que tem sido seguida em Bragança não pode continua a ser seguida”, referiu Joana Botas.
“Havia outros assuntos, principalmente sobre Rabal, que eu gostava de ver esclarecidos. É uma vergonha o que se passa lá a nível de esgotos, esse assunto foi debatido aqui, mas eu já vivo lá há 20 anos e aquilo continua tudo na mesma”, a opinião é de Augusto Santos. 
“Noto que há uma preocupação em fazer evoluir Bragança, mas no meu ponto de vista alguma coisa tem de se alterar”, contou.
Excertos da primeira ronda de discussão no debate autárquico 2017 em Bragança, promovido numa parceria Rádio Brigantia/ Jornal Nordeste. 

Escrito por Brigantia
O debate vai ser transmitido novamente esta noite às 21:30 na Rádio Brigantia.

Alterações climáticas e as consequências na região

Rajadas de chuva fortes, embora cada vez menos frequentes, e ondas de calor excessivo são algumas das consequências das alterações climáticas verificadas na maioria do território da Terra Quente nos últimos dez anos.
Conclusões da primeira fase do Plano Intermunicipal de Adaptação às Alterações Climáticas, um projeto da Sociedade Portuguesa de Inovação que está a estudar as consequências dessas mudanças nos concelhos de Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Alfândega da Fé e Vila Flor.

Carolina Turcato, é consultora no projeto e fala de alguns efeitos das alterações verificados na região.

“As principais vulnerabilidades que afetaram o território nos últimos dez anos foram  episódios de precipitação excessiva com cheias e inundações, causando diversos impactos nos territórios dos diversos municípios.

Foram também registadas ondas de calor em alguns anos, prejudicando culturas, cadeias de produção e a saúde da população.

Em alguns anos foram também registadas secas severas intensas e extremas na região afetando as produções agrícolas e foram ainda analisados os principais impactos a que a região é mais vulnerável. “
O próximo passo consiste em determinar quais as consequências que podem ocorrem no futuro, para, com base nessa informação, serem concebidas estratégias de adaptação em cada um dos municípios que fazem parte do plano.

“Numa terceira fase vamos desenvolver estratégias  de adaptação dos territórios às alterações climáticas. Essas estratégias podem ser tanto na criação de políticas e medidas de consciencialização como também na criação de infraestruturas cinzentas como contenção em locais onde há maior possibilidade de inundações como por exemplo a criação de espaços verdes dentro dos municípios de forma a promover um maior conforto para a população.”
Paulo Silva, engenheiro da Proteção Civil Municipal de Macedo de Cavaleiros, diz que as medidas de adaptação às alterações climáticas fazem falta à população do concelho, e aponta, inclusive, algumas situações.

“Este ano apesar de termos menos ocorrências a nível dos incêndios florestais, os que tivemos foram complicados. 

Durante o inverno, nos anos anteriores temos tido algumas precipitações intensas embora pouco frequentes. Estamos a passar um período de seca que já se tem notado e isso também se traduz em alguns problemas para a população. A nível dos incêndios florestais temos de nos preocupar cada vez mais com a prevenção, a nível da seca, os nossos agricultores terão de se adaptar a essas novas condições e terão todo o apoio do município para desenvolver projetos que possam ser feitos.

Relativamente aos danos que poderão causar em algumas infraestruturas, estamos atentos e vamos tomando as nossas precauções dentro das nossas medidas.”
Relativamente a este ano, Paulo Silva diz ainda ter ouvido algumas preocupações de produtores que vêem certas atividades agrícolas e pecuárias afetadas pelo tempo.

“Relativamente às associações, cooperativas e falando com os produtores sabemos que certamente este ano, a produção da castanha será complicada com grandes percas, assim como a azeitona, duas das atividades agrícolas aqui do concelho.

Também quem tem gado, pastagens secas, há falta de água para dar de beber aos animais, portanto, são preocupações que também nos preocupam a nós.”


O Plano Intermunicipal de Adaptação às Alterações Climáticas começou a primeira fase de elaboração em junho e trabalha em parceria com o Instituto Politécnico de Bragança e o Instituto do Ambiente e Desenvolvimento da Universidade de Aveiro.

Escrito por ONDA LIVRE

Transmontanos entre os vencedores do Orçamento Participativo Portugal

Dois projetos do distrito de Bragança estão entre os 38 vencedores do primeiro Orçamento Participativo Portugal. Tratam-se de iniciativas da área da cultura, nomeadamente "Contos e Lendas Transmontanas" proposto por Alex Rodrigues, de Pinela, concelho de Bragança, e  projecto da Filandorra – Teatro do Nordeste “O Teatro e as Serras”, que foi implementado em aldeias de Alfândega da Fé.
"Contos e Lendas Transmontanas" proposto por Alex Rodrigues, de Pinela, concelho de Bragança, propõe-se preservar as memórias, as tradições, as lendas  do património imaterial da região.Obteve 760 votos. 
O projecto da Filandorra – Teatro do Nordeste “O Teatro e as Serras” que leva as artes cénicas às populações da Serra de Bornes/Paradela, Alvão/Marão, Gerês e Montesinho também foi um dos vencedores do primeiro OPP – Orçamento Participativo de Portugal na área da Cultura/Região Norte, com 424 votos.
Uma vitória que os responsáveis pela companhia transmontana consideram "histórica" , uma vez que é uma forma de reconhecimento ao seu projeto de trinta anos  por parte da populações da região.
Com um investimento de 100 mil euros e um período de execução de dois anos, esta “almofada” financeira a atribuir à Companhia vai permitir “salvar a Filandorra”, dada a ausência de apoios da DGartes/Ministério da Cultura desde 2012, revelou uma fonte da Filandorra.

Glória Lopes
in:mdb.pt

Rádio Comercial | New York, New York: Mirandela

Tecelagem de panos – Fábrica do Felgar nas Memórias Arqueológico-Históricas

Em 1863 fundou em Moncorvo o espanhol Manoel Milhano uma tecelagem de cobertores de papa (lã), que manteve durante seis anos e depois transferiu para o Ribeiro dos Moinhos, termo do Felgar, no mesmo concelho, onde ainda hoje se conserva, para aproveitar como força motriz, em roda hidraúlica, a grande queda de água desse ribeiro.
Esta fábrica do Ribeiro dos Moinhos, ou, melhor, chamada Felgar, é hoje dirigida por Manoel Milhano Sanches, filho do fundador, que ainda vive no Porto, onde tem e dirige uma outra de lanifícios.
A do Felgar dispõe do seguinte maquinismo: seis teares, seis cardas, uma esfarrapadeira e duas máquinas de fiação em selfactinas.
Carda lã para as principais terras do Sul do distrito de Bragança, e a sua especialidade é a tecelagem de cobertores de papa, que são vendidos em grande escala pelos concelhos vizinhos, chegando mesmo ao Porto.
Possui dois pisões: um para cobertores e outro para burel, e emprega anualmente, em média, dez operários por dia desde as sete horas da manhã às sete da tarde.
Cada cobertor é vendido por 1$500 réis, sendo inferior, e por 3$000 réis, sendo dos melhores. Por tecer um cobertor de dois arratéis levam 1$000 réis; por arrátel de cardagem 30 réis, e 20 a 25 réis por cada vara (1,10m) de pisoagem.
É esta a única fábrica mecânica de tecido de panos no distrito de Bragança, mantendo-se, porém, em todas as suas aldeias as antigas indústrias caseiras limitadas neste particular ao clássico tear à mão do pardo ou burel e do linho, de fraca produção consumida no território.
Os teares do pardo ou burel tecem pano em média de 1,50m de largura, que, além de aplicado para vestir, serve também para mantas; empregam duas pessoas, no geral mulheres, que fabricam nove a doze varas entre dia e vela de noite.
Há ainda outros teares mais estreitos, chamados de branqueta ou meia cana, manobrados só por uma mulher, que tecem pardo ou burel, linho e estopa, a qual fabrica entre dia e vela seis a oito varas.
Os teares do linho propriamente são ainda mais estreitos, regulando em média o seu tecido por 0,60m; empregam só uma mulher que fabrica de oito a dez varas por dia, contando a vigília.
O tecido de uma vara (1,10m) de pardo largo custa 50 réis e a dita vende-se desde 1$000 a 1$200 réis.
Dita de linho ou estopa os mesmos 50 réis, vendendo-se aquela desde 240 a 300 réis e esta desde 160 a 240 réis.
Nos teares largos do pardo também se fabricam cobertores muito bons e colchas, tendo fama as de Urros, no concelho de Moncorvo, e as de Moimenta, no de Vinhais.
O tecido de um destes cobertores regula por 500 a 700 réis, e de 1$000 a 2$500 réis uma colcha.
É de estarrecer a lembrança da soma enorme de energias desaproveitadas que os nossos rios e ribeiros representam sem que a indústria saiba ou queira tirar dela proveito! Não temos hulha – o pão da indústria – e não aproveitamos a hulha líquida!!!
Nem para irrigações de monta os aproveitamos, sendo que um canal bem dirigido a beber no Douro, pela altura de Miranda podia fertilizar quatro concelhos do Sul do nosso distrito e muito terreno no de Vila Real.

Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança

As couves da Portela

Burro das couves
– Oh senhor! Oh senhor!, desapertou-se o “bencelho”, ajude-me, se faz favor.
“Bencelho”, melhor, vencelho ou vencilho – atilho de palha de centeio com que eram apertadas aos molhos as couves que foram semeadas por alturas do Santo António, em junho, portanto, e colhidas ainda num estado prematuro de desenvolvimento para serem depois vendidas e plantadas. Sim, as couves tronchas comidas no Natal passavam a sua história e faziam o seu percurso! Vinham da Portela, lugar da freguesia de Folhadela, concelho de Vila Real e chegavam ao largo do sr. Albertim, em S. Lourenço, logo a seguir à festa de Nossa Senhora da Saúde.
Juntos com os donos, vários burros ou burras já cansados da viagem e carregados de couves aos molhos, apertados com “bencelhos”, arribavam satisfeitos mesmo assim, pois a parte mais difícil da caminhada estava concluída. O conforto para a noite iam encontrá-lo ali, no largo, aproveitando-se o tempo anterior à deita para realizar já algum negócio antes ainda de retomarem a caminhada para a feira de Vilar de Maçada, ao outro dia de madrugada onde, se tudo corresse bem, despachariam o resto das couves – produto do trabalho daquelas famílias que de tão longe se deslocavam.
– Qual o preço?
– O mesmo dos outros anos.
– Oh senhor, dê-me aí um cento.
– Se forem boas e sãs, eu quero dois centos.
– É só plantar e regar e, no Natal, comerá boa couve, tenho a certeza!
Após tantos quilómetros feitos a pé, ali passavam a noite aqueles pequenos e humildes lavradores da Portela, a caminho da feira de Vilar de Maçada para onde se dirigiam depois de umas poucas horas de recuperação das forças. A direção era o rio Pinhão, atravessado nas poldras.
Terminada a feira, a tirada de regresso era feita de uma assentada, já sem couves e os burros mais livres.

A. Fernando Vilela
in:atelier.arteazul.net

Vários gerações juntas em convívio no Santuário de Santo Ambrósio

No domingo vários convivas de diferentes idades estiveram juntos para um dia de troca de saberes e diversão em grupo no Santuário de Santo Ambrósio, em Vale da Porca, Macedo de Cavaleiros.
O já tradicional Encontro de Gerações acontece há mais de trinta anos, juntando utentes de lares e centros de dia, entre outras associações do concelho.

Alfredo Castanheira Pinto, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Macedo, uma das organizadoras do encontro, considera que estes atividades fazem falta para a boa disposição dos participantes porém, confessa, tem sido cada vez mais difícil juntar alguns utentes ao convívio.

“Fazem falta porque se encontram pessoas que não se viam há muitos anos, revivem-se passados, as pessoas ficam contentes ao encontrar gente com quem viveram na mocidade deles e depois deixaram de os ver. É uma festa para todos. O  nosso princípio foi sempre fazer com que eles acabassem por se conhecer, fazer amizades entre uns e outros e trabalharem juntos para o mesmo fim. Já começa a ser complicado as pessoas que vêm porque começam a ficar muito dependentes. Este frio constipa-os e depois sofrem muito.”
Duarte Moreno, autarca macedense, diz-se satisfeito com a adesão das pessoas e com a possibilidade de haver convivência entre as diferentes gerações do concelho.

“É verdade, temos aqui o nosso concelho todo representado com os centros de dia e é o convívio anual que se faz. Todos vieram, todos chegaram até aqui e todos estão contentes. Eu já dei a volta a todas as mesas e, de facto, as pessoas estão satisfeitas e já contam anualmente com este encontro porque convivem, vêem pessoas, revêem amigos,  falam, conversam e brincam. É isso que nos deixa também satisfeitos.”
Por lá os mais idosos não escondem a alegria de poderem passar um domingo diferente.

“Venho todos os anos e gosto porque acho isto muito bom, muito engraçado, convivemos, conversamos, passamos um dia diferente. É bonito. Relacionamos-nos até com pessoas que  nunca vimos. Se calhar até vou dançar.

Ainda hei-de cá voltar para o ano se for vivo, se Deus quiser. Quero estar amoroso com toda a gente, é isso que nós precisamos. Aqui todos são meus amigos. Já vim muitos anos,  gosto muito e espero muito vir cá mais vezes se Deus nosso senhor nos deixar.

Venho cá muitas vezes. Gosto de vir porque, como estamos um pouco solitários, ás vezes encontramos pessoas conhecidas, pessoas que há muito tempo não vemos. É gratificante.

Gosto de vir ver as pessoas, gosto de cantar, dançar, gosto de tudo. Eu não gosto de vir só aqui, gosto de ir a todas as festas. Mas aqui venho sempre quando têm encontros. E adoro dançar.

Já há muitos anos que cá viemos. Gostamos de vir cá, mas devia ser mais cedo, foi muito tarde. Eu aqui Trás-os-Montes conheço tudo.”
Quanto aos mais novos, o dia foi destinado a aprender com os mais experientes.

“Sim, estamos a gostar muito. Contam-nos muitas coisas, do tempo antigo e ensinam-nos  jogos e outras coisas.

O encontro tem muita animação, aprendemos as histórias delas e convivemos com elas.

Estou a gostar, é muito divertido, já venho há muitos anos.  Aprendo algumas coisas que elas sabem fazer e a dançar.”
Um dia onde a troca de conhecimento e a diversão foram palavras de ordem no Santuário de Santo Ambrósio.

Escrito por ONDA LIVRE

Nós, Transmontanos, Sefarditas e Marranos - ANTÓNIO FERNANDES PEREIRA (N. MOGADOURO,1693)

Seu pai, Manuel Fernandes, (1) nasceu em Vilarinho dos Galegos, Mogadouro e os ascendentes mais antigos que conhecemos e pertenceram à primeira geração de cristãos-novos, viveram em Sendim e Duas Igrejas, terras de Miranda.
A mãe, Maria Pereira, (2) seria originária de Castela, se bem que não haja certezas sobre o local de seu nascimento: Castela, Bragança ou Mogadouro. Pertenceu a uma “ínclita geração” que foram os filhos de Domingos Pereira, o Gaioso, de alcunha, e Clara Lopes, verdadeira matriarca.
O jovem casal constituído por Manuel Fernandes e Maria Pereira estabeleceram morada em Mogadouro e aí nasceu António Fernandes Pereira, pelo ano de 1693. Recém-casados, dispunham já de algum capital, pois que logo ascenderam à categoria de rendeiros. E como rendeiros foram viver para o Vidago, termo de Chaves. São daí as primeiras recordações do nosso biografado, do ponto de vista religioso, dizendo que foi sua mãe que o introduziu na lei de Moisés quando tinha 7 anos, acrescentando que “ficou com sua mãe até à idade de 9 anos”. Há uma nebulosa, porém, nestas vivências de António Fernandes que, em outra ocasião, confessou:
- No Porto, em casa de Gaspar Lopes da Costa, (3) onde ele réu assistia desde a idade de 5 para 6 anos, se achou com Manuel Lopes Dourado, cirurgião (…) que o doutrinou a mandado do pai dele réu, e ele réu tinha então 10 anos de idade.
Podemos então concluir que a meninice de A. F. Pereira foi vivida entre o Vidago e o Porto. Aliás, em 28.7.1732, sua mãe faria a seguinte declaração:
- Haverá 26 ou 27 anos, no lugar de Vidago, nas casas em que ela morava, se achou com seu filho (…) António Fernandes Pereira, solteiro e agora não sabe novas dele (…) e estando ambos sós, por ocasião do dito seu filho lhe dizer que na cidade do Porto o haviam ensinado a viver na lei de Moisés, se vieram ambos a declarar e não disseram mais porque passados poucos dias se ausentou.
Na verdade, antes de embarcar para o Brasil, o pequeno António e o “passador” ou “agente” Gaspar da Costa terão viajado para o Vidago, certamente a fazer as despedidas. E, contando ainda uns 10 anos de idade, ele chegaria ao Brasil, à povoação de Parnamirim, a casa de sua avó Clara Lopes, que continuaria a ministrar-lhe o ensino da lei mosaica.
Os anos seguintes, até atingir a maioridade, assistiria sobretudo em casa de sua tia Luísa Pereira, casada com Francisco Fernandes Camacho, (4) primeiro em Ferrobilhas e depois nos Campinhos da Cachoeira, ambos sítios da freguesia de S. Gonçalo, termo da Baía. E a tia Luísa lhe completaria o ensino da religião judaica.
Por 1718 António Fernandes traçou um novo rumo para a sua vida, metendo-se a caminho das Minas de ouro e fazendo-se mineiro. Nos 10 anos seguintes, foi empresário de sucesso e “correu todas as Minas Gerais, Novas e Velhas”.
Primeiro terá explorado minério no Córrego do Bacalhau, termo de Ribeirão do Carmo, onde tinha uma casa e nela terá judaizado no ano de 1721 com seu irmão Domingos Pereira da Costa e com seu primo Manuel Lopes Pereira, também mineiro. Nesse ano, porém, o jejum do “dia grande” tê-lo-á feito em casa de Francisco Nunes de Miranda, no termo de Vila Rica.
Depois foi explorar ouro para o sítio do Mato Dentro, termo de Rio Frio, bispado do Rio de Janeiro e ali, em sua casa, no ano de 1726, terá celebrado a festa do Kipur com alguns amigos e parentes, nomeadamente David Mendes da Silva e Manuel Lopes Pereira.
Por 1729, tinha exploração montada nas Minas Novas de Araçuaí, mal suspeitando que, em 10 de abril do ano anterior, os inquisidores de Lisboa tinham assinado o mandato de sua prisão que seria consumado em 12 de outubro de 1730 com a sua entrega no tribunal de Lisboa. Assim se alterava o rumo da vida de um homem de 37 anos e se arruinava uma empresa de sucesso. Façamos então o ponto da situação, espreitando o inventário de seus bens, que logo lhe foram sequestrados:
*Uma roça nas Minas de Araçuaí, que valia mil oitavas de ouro.
*Outra roça no sítio do Mato Dentro, do Serro Frio, que valia 50 oitavas de ouro.
*uma morada de casas no mesmo sítio que valia 600 oitavas de ouro.
*Tinha “ouro das águas do morro de mato Dentro” que arrematara por 400 oitavas de ouro, de sociedade com Diogo de Aguiar.
*20 ou 21 escravos, sendo 2 “fêmeas” avaliados em 3 mil oitavas de ouro.
*As ferragens de minerar que valiam umas 30 oitavas de ouro.
Deixamos o resto dos bens, como fossem talheres de prata, mobílias ou roupa, assim como as dívidas, ativas e passivas, coisas que pouco acrescentarão para caracterizar a empresa de António Pereira.
Repare-se que as oitavas de ouro constituem a moeda corrente naquela parte do império. A moeda oficial (réis) parece nem ter ali circulação. Devemos, no entanto, dizer que 1 oitava de ouro equivalia a 1 500 réis, (5) significando isso que os bens acima arrolados valiam mais de 7 contos e quinhentos mil réis, uma verdadeira fortuna!
Do ponto de vista teológico, o processo de António Fernandes é muito interessante, na medida em que ele confessou fazer muitas e continuadas cerimónias judaicas e ditou orações que sua mãe lhe ensinara em criança e que toda a vida rezara mas disse que sempre fora cristão e que fazia as coisas de judeu apenas para “comprazer com as pessoas” de suas relações, “a fingir que vivia na lei judaica”. Veja-se:
- Disse que fez as orações e cerimónias que a dita sua tia lhe ensinou persuadido de que não seria do desagrado de Deus, não crendo na lei de Moisés, antes na de Cristo (…) porque só as fazia para comprazer com as pessoas que com ele comunicavam.
Gostaríamos de apresentar aqui uma belíssima oração que sua mãe lhe ensinou em criança, a qual trata das relações entre Deus e o povo eleito, da aliança feita com Moisés no monte Sinai. Impedidos pela extensão da mesma, apresentamos uma mais pequena, igualmente aprendida em criança com a mãe:
Poderoso grão senhor
Da tua sanha me livra;
Rogo-te meu criador
Que aplaques a tua ira,
Por que o rei da perdição
Contra mim não prevaleça;
Posto que o não mereça
Dá-me a salvação, senhor.

Uma última nota para dizer que António Fernandes Pereira tinha 9 irmãos, 5 dos quais conheceram como ele os cárceres da inquisição. Um irmão e duas irmãs casaram na família Peinado, de Bragança e foram presos no rio Tejo quando iam embarcar para Inglaterra, fugindo da inquisição. (6)

Notas e Bibliografia:
1-Manuel Fernandes faleceu em Chaves, sendo morador na Quinta de Paradela. Em 1690 foi preso pela inquisição. O mesmo acontecera em décadas anteriores com seus pais e avós. - ANTT, inq. Coimbra, pº 224, de Manuel Fernandes.
2-Maria Pereira apresentou-se na inquisição de Coimbra onde ficou presa, em 1726, saindo reconciliada em 9.5.1728. – Pº 8832.
3-Gaspar Lopes da Costa aparece nesta altura na cidade do Porto como “passador” de gente para o Brasil e mais tarde exerceria a mesma atividade em Lisboa embarcando gente fugida da inquisição para a Inglaterra – ANDRADE e GUIMARÃES, jornal Nordeste, nº 1082, de 8.8.2017.
4-Aventurosa foi a vida de Francisco Camacho. Certamente pressentindo o cerco da inquisição, deixou o Brasil e embarcou para o reino. Chegado aos Açores, em Angra do Heroísmo, foi à sede episcopal pedir que lhe enviassem para a inquisição um escrito que deu e no qual “pede aos senhores inquisidores Mesa, que tem que dizer nela, e que por achaques que padece o não fez (…) e que o fará com toda a brevidade, dando-lhe Deus saúde. Ilha Terceira, 1 de outubro de 1725”. O papel foi enviado para a inquisição de Lisboa que abriu o respetivo processo – nº 13442 – do qual nada mais consta. Sabemos, porém, que Francisco Camacho chegou ao reino e se despediu da família dizendo que ia ao Algarve. Na verdade, 8 anos depois, escreveu de Londres, onde vivia usando o nome de Francisco Martins, a mandar ir as filhas para junto dele. – ANTT, inq. Lisboa, pº 9925, de Beatriz Lopes.
5-FERNANDES, Neusa – A Inquisição em Minas Gerais no século XVIII, ed. Uerj, 2000.
6-ANDRADE e GUIMARÃES, José Rodrigues Peinado, in: jornal Nordeste nº 1040, de 18.10.2016

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães
in:jornalnordeste.com

O MANSO E O GUERREIRO - VIII – PATRIMÓNIO GENÉTICO

Tomé Guerreiro estava já há algum tempo à espera do seu amigo Júlio Manso e foi logo direto ao assunto sem qualquer introdução, brandindo o jornal Nordeste de algum tempo atrás.
– Já viu o que vem aqui escrito?
– Não vi, mas o meu amigo vai dizer-me, com toda a certeza.
– Claro que sim. Diz aqui no jornal que a amêndoa coberta de Moncorvo obteve a certificação da União Europeia.
– Estamos então de parabéns.
– Claro, todos nós, a começar pela Câmara Municipal que em colaboração com o Agrupamento de Produtores de Amêndoa, elaboraram, promoveram e candidataram o processo. Só é pena que não se tenha acautelado a preservação do germoplasma da espécie autótone e tradicional.
– Agora é que eu não entendi nada!
– A amendoeira, como sabe, ao contrário da oliveira, é uma árvore de vida curta. Por isso é necessário ir renovando os amendoais.
– Claro. Mas isso não é natural?
– Naturalíssimo! O que acontece é que as novas árvores são de origem italina, espanhola e francesa, diferentes da tradicional.
– Provavelmente porque são melhores.
– Muito melhores! Por isso é que estão a ser preferidas às de antigamente.
– E isso é mau?
– Claro que não. É bom porque permitem maior rentabilidade, mais resistência às pragas e mais longevidade. Mas com o passar do tempo, com a substituição das árvores mais antigas pelas novas espécies, estamos, pouco a pouco a perder um património que é nosso.
– E para que queremos nós esse património, para que servem essas velhas árvores se existem melhores espécies disponíveis.
– Meu caro amigo, isso nem parece seu. Para que o queremos? Ora essa, para o conservar, exatamente pela mesma razão por que conservamos os castelos, os fortes, os castros e outras antigas construções.
– Isso é diferente. São monumentos antigos e com muito valor.
– Diferente em quê? A questão é exatamente a mesma. A conservação dos monumentos não impediu a modernização da habitação. Conservar as construções antigas não quer dizer que tenhamos de manter a técnica e a forma antiga de edificar as habitações. As casas de agora podem e devem ser mais confortáveis, ter outro tipo de estruturas e comodidades. Mas isso não pode implicar a destruição ou sequer a deterioração do património edificado só por não ter essas características.
– Ou seja devem os agricultores optar por novas variedades mas deve ser assegurado o património original da tradicional?
– Exatamente.
– Mas como?
– Assegurando a existência de alguns amendoais com as espécies tradicionais que embora tendo rendimentos mais baixos e menor resistência a pragas e doenças, garante que não se perdem as espécies que durante milhares de anos povoaram as encostas dos montes da Terra Quente.
– E porque hão-de os agricultores, cujos rendimentos são tão escassos, preocupar-se com essa questão em vez de aproveitarem todo o terreno disponível para plantações modernas e rentáveis?
– Tem toda a razão. Não compete aos agricultores assegurarem esse objetivo. Essa é uma tarefa das instituições do setor com o devido apoio da autarquia!
– E não há outra forma de garantir esse desiderato?
– Sim, há outra forma que aliás é já usada em outros locais: isolando, conservando e preservando o respetivo germoplasma.
– E como é que se faz essa preservação?
– Isso é que eu não sei. Mas há, certamente quem saiba. Basta inquirir.
– Nem mais!



José Mário Leite
in:jornalnordeste.com

DIGA-ME LÁ EM QUEM DEVO VOTAR?

Sempre que um acto eleitoral se aproxima, a maior parte dos eleitores não sabe, à partida, em quem votar ou está predisposta a não o fazer. A questão coloca-se com maior acuidade aquando da eleição de uma nova Assembleia da República.
Por isso as forças políticas habilitadas ao acto eleitoral em jogo respondem com encenações vistosas baseadas em cartazes com fotografias cuidadosamente retocadas e chavões ridículos, que pouco ou nada dizem, mas sempre despertam a curiosidade dos transeuntes, como se de um produto de supermercado, detergente ou pasta de dentes, se tratasse.
No próximo dia 1 de Outubro vão ser eleitos novos e reeleitos velhos autarcas em processos eleitorais que continuam a ser, em muitos casos, deturpados pelas forças que detêm o poder.
Tanto assim é que o hábil exercício do poder autárquico conferia claramente aos seus detentores o condão de se fazerem reeleger até se fartarem, razão pela qual a limitação de mandatos veio pôr fim, justamente, à gesta heróica dos chamados autarcas dinossauros. O que ainda não acontece, lamentavelmente, com os deputados vitalícios.
A decisão de votar ou não votar, e em quem, não é linear para a maioria dos eleitores, portanto. Vários amigos meus, confrontados com este dilema, porque não se sentem devidamente informados e pensam, erradamente, que eu o estarei, ou porque nenhum candidato ou partido seja de seu agrado ou lhes inspire confiança, vêm ter comigo para, em privado, me fazerem esta pergunta embaraçosa: Diga-me lá em quem devo votar? Situação que, por certo, não só a mim é colocada.
Apetece-me dizer-lhes que também eu não sei e tenho as mesmas dúvidas, mas resisto à tentação de aconselhar que não votem, que se abstenham, porque entendo que devemos ir às urnas sejam quais forem as circunstâncias. Porque, mesmo se for inconciliável a aversão pelas forças partidárias e candidatos em presença sempre nos é dada a possibilidade de chegar à mesa de voto e escrever no boletim uma mensagem, politicamente correcta, do género “Viva a democracia” ou “ Abaixo a mediocridade”.
Também porque a lei em vigor e a inteligência política instalada olham os abstencionistas como cidadãos de segunda categoria e os tratam como comodistas, marginais, ausentes em parte incerta ou mesmo defuntos, não lhe reconhecendo a justa relevância política.
É por tudo isto que eu partilho a ideia de renomados estudiosos destas questões de representatividade que defendem, face ao peso esmagador da abstenção, que deveriam ser deixadas vagas nas Assembleias as cadeiras correspondentes aos abstencionistas.
De facto, se a abstenção não conta como voto, então, se não há votos não deve haver atribuição de mandatos, pelo que é abusivo os partidos elegerem deputados excluindo os abstencionistas. E o que se diz para a Assembleia da República diz-se para as Assembleias Municipais. Seria, além do mais, uma forma simples e espontânea das Assembleias mais fielmente espelharem o sentir da Nação e de reduzir o número de deputados e os gastos correlativos.
E mais! Entendo que os boletins de voto, da mesma forma que têm quadradinhos para colocar a cruzinha correspondente ao partido preferido, também deveriam ter um, de igual tamanho, com o dizer “ Abstenho-me”. Ou mesmo “Não voto em ninguém”.
Será pedir demais? Será que os portugueses, mesmo não gostando, são obrigados a engolir a caldeirada do regime e a render-se à lei do “come e cala-te”, apanágio da generalidade dos nossos políticos?
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.



Henrique Pedro
in:jornalnordeste.com

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Cuidado Meu Povo. Eles “Andem Aí”

Bem sabemos que a democracia não se constrói sem pessoas e sem candidatos aos lugares, aos cargos políticos.

Já falei a sério no primeiro parágrafo. A partir de agora vai ser apenas a brincar e tudo o que escrever é mentira ou ficção.

Beijos, abraços, sorrisos, afabilidade, simpatia, proximidade e promessas, muitas promessas.
Pensai neste “regabofe” e já foi pior.
No Concelho de Bragança, devem ser, à volta, de 1000, mil, cidadãos que têm 11 dias de dispensa laboral para tentarem, e conseguem, enganar o Povo.
Portugal tem 308 municípios, se não me engano.
Uns municípios terão mais candidatos, outros menos, mas vamos arredondar.
300 mil cidadãos que nada mais vão fazer nestes 11 dias a não ser, comer, beber, abanar as bandeirinhas, e as orelhas, e ajudar os mentores a mentir, a prometer. Objetivo único. Conseguir o nosso voto no dia 1 de outubro. Sentem-se os donos do mundo. Invadem cidades e aldeias, ruas e casas como quem vai visitar o jardim zoológico. Ainda não se lembraram de atirar os amendoins.
E Curtem!!! Como Curtem Óh Meu! É uma alegria ver as fotos da campanha.
Se alguma "coisa" anda mal nesta terra, à beira mar plantada, não passa a "maleita" pelos partidos.
Serão provavelmente mais do que os inscritos no IEFP como desempregados.
Os “burros” que nasceram para trabalhar, continuam pois a aguentar os “barcos e as carroças”. Nada de novo. Esta rapaziada faz “política” o ano inteiro e os “camelos” (da família dos burros anteriores) vão trabalhando todos os dias e no dia 1 lá estarão a agradecer, aos iluminados, com o seu votito.
Normal, tudo normal.
Quanto custa esta paródia ao erário público. Tudo somado. Alguém me sabe dizer?
Dos 300 mil, uns 10% estarão por convicção. Acredito que sim. Querem, se lhes for dada a oportunidade, servir o País, os municípios, os cidadãos.
20%, “deram” o nome para estarem 11 dias sem fazer puto.
20%, a passar, viram-se obrigados a dar o nome. Uns para pagar a cunha que, em boa hora meteram, para eles e para os familiares.
10% andam à procura de emprego, de tacho, para eles e/ou para os seus familiares. O raio é se apostam no “cavalo” errado. A vida…também é um risco.
20% são do partido (e nestes cabem os anteriores das cunhas para eles e para os familiares até à 10ª geração e, claro os que andam a saber de tacho ou de emprego).
10% alinham no “folclore” por que o chefe os obrigou, com ameaças de represália para eles ou para os familiares.
5%, é mesmo por que são do contra.
Os outros 5% nem sabem bem qual o partido por que concorrem.
Não sei se as contas dão 100%. Se não derem perdoai-me. Também pago impostos e assim sendo assiste-me o direito, nesta época pelo menos, de mentir, ser falso e hipócrita.
Mas este “folclore” tem aspectos positivos.
Em muitas aldeias é, em tempo de campanhas eleitorais, a única altura em que nossos velhotes, vêem gente de fora.
Pelas ruas e avenidas, é nesta altura que vemos sorrir e dirigir-se a nós, aquele ou aquela, personagem de quem não sabemos o nome e que, agora, parece que nos conhece há 50 anos.
Depois de passarem ficamos a pensar…
Fo..-se este tipo foi sempre um convencido armado ao caga..ã. e agora finge que me conhece?
Olha...o FDP sempre de nariz empinado e agora estica-me a mão?
E como ouvem agora o Povo, as Gentes, as Pessoas.
Óh Sr. Doutor: aquele caminho, o meu filho, o telhado da minha casa, o lar, a água, o vinho e a jeropiga…a varanda do vizinho…e a falta que me faz um posto dos CTT e a linha do Comboio.
Se for a situação responde:
- Olhe Tia Maria, estou a saber agora. Não se preocupe que é já a seguir, tivesse eu sabido antes que já estava mais que resolvido.
Se for a oposição responde:
- Olhe Tia Maria, vote em nós. Se ganharmos é a primeira coisa que faremos. É uma vergonha que isso aconteça. Na primeira semana garanto-lhe que a "coisa" está resolvida.
Fazei agora vós a multiplicação do que prometem, quantas vezes e a quantas pessoas.
Mas está tudo bem. Siga o “regabofe”. O Povo gosta e paga.
Sinceramente…,penso que é inevitável algum (substancial evidentemente) gasto e as promessas.
Por estes dias, aparecem com solução para tudo e mais alguma coisa. Depois...é que a "porca torce o rabo".
Mas, por outro lado, também penso que era possível poupar muitos MILHÕES DE EUROS.
1 – Proibir campanha em Freguesias onde existisse lista única;
2 – Acabar com a MAMA dos 11 dias de férias. Quem fosse candidato provaria a convicção abdicando das suas próprias férias para servir a democracia;
Obs* E são os mesmos mamões dos partidos, famílias e amiguinhos do coração, que vão para as mesas de voto ganhar os 70 e mais um diazito de férias a seguir;
3 – Proibir a indecente sujeira que é feita pelas ruas e avenidas com panfletos, e derivados, que ninguém lê;
4 – Proibir os vira-casaca. Quem se candidatasse por um partido político não o devia poder fazer, na eleição seguinte, por outro partido. E o que tem MENOS piada, é que raramente são penalizados, no ato eleitoral, pela cobardia;
Obs* Até fica, menos mal, aos “dinossauros” que colocam “uma espécie de substitutos” “nos entretantos” para nas eleições seguintes voltarem a assumir a mama. Ora, são eternos e insubstituíveis;
Termino como comecei.
A Democracia precisa de todos. Homens e Mulheres. Mas era mais que possível fazer melhor. BEM MELHOR!



Um espécime político sem partido e em vias de extinção.
HM